ARTIGO

O Brasil não precisa de mais armas

Se não há tiroteios em massa, como no caso americano, por aqui prosperam outras formas de violência
:: Margarida Salomão5 de outubro de 2017 10:38

O Brasil não precisa de mais armas

:: Margarida Salomão5 de outubro de 2017

Uma sentença sintetiza com precisão o sentimento que prevalece nos Estados Unidos, após o mais recente assassinato em massa, ocorrido na última segunda feira (2). “Há quem diga que ainda é cedo para falar sobre o controle das armas de fogo. Para as vítimas de Las Vegas, é tarde demais”.

Os dados que ilustram a cultura da violência nos Estados Unidos em muito ultrapassam os 59 mortos e mais de 500 feridos de Las Vegas. Apenas em 2017, houve pelo menos 273 tiroteios em massa no país, resultando em 11,6 mil mortos. Para se ter ideia, esse número é quatro vezes superior ao total de vítimas do ataque terrorista de 11 de setembro de 2001.

De nós, brasileiros e brasileiras, o momento exige solidariedade mas também um senso de alerta. Vivemos dias em que a insensatez se põe em marcha, avançando com celeridade e determinação. Na Câmara, esforços da bancada da bala ressuscitaram propostas que modificam as regras do porte de armas.

Os principais esforços concentram-se em torno do Projeto de Lei 3.722/2012, do deputado federal Rogério Peninha Mendonça (PMDB-SC). Na prática, a proposta revoga o Estatuto do Desarmamento, instituindo um “Estatuto de Controle de Armas de Fogo”, com regras significativamente mais brandas.

Entre as alterações previstas, estão a redução da idade mínima para a posse e o porte de armas, o fim da exigência de “ficha limpa” para a concessão do benefício, a ampliação do volume de munição que pode ser comprada, bem como o fim da necessidade de autorização formal para o transporte das armas entre residência e local de trabalho – o que, na prática, torna legal o porte de armas nas ruas.

Que esperar de mudanças como essas senão a ampliação do clima de guerra civil presente nas periferias de tantas grandes cidades brasileiras? Ressalte-se que, segundo o Mapa da Violência, houve no Brasil 123 mortes diárias, mortes a tiros – contra 42 nos Estados Unidos. Isso com controle de armas. Imagine a matança com a desregulamentação …

Pois se não há tiroteios em massa, como no caso americano, por aqui prosperam outras formas de violência: a guerra não declarada que vitimiza  negros e negras pobres, o ineficaz combate ao tráfico nos morros, os inúmeros casos de agressão e tortura a crianças e adolescentes infratores, os assustadores episódios de violência contra mulheres.

Decididamente, o Brasil não precisa de mais armas.

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