Democracia

“Precisamos imunizar a construção política contra a barbárie projetada pela extrema direita”, aponta estudo de assessor petista

Bruno Costa analisa as possibilidades da luta política para além das conquistas materiais e projeta construção de novas utopias pela esquerda contemporânea

Reprodução

“Precisamos imunizar a construção política contra a barbárie projetada pela extrema direita”, aponta estudo de assessor petista

Estudo investiga importância do capital simbólico na luta política

“É a economia, estúpido”. A frase proferida em 1992 pelo estrategista político James Carville, na campanha eleitoral do presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, tornou-se um clássico, indicando que o eleitor médio decidia baseado em seu bem-estar material mais imediato. Tudo indicava que a sentença valeria para sempre. Mas a emergência das redes sociais e a disputa por capitais simbólicos mostrou que a luta política e eleitoral se dá em outros campos. Essa é a motivação central do estudo “Classe Trabalhadora, subjetividades e disputa política”, do assessor da Liderança do PT no Senado Bruno Costa.

Mestre em Literatura e Memória Cultural e integrante da Coordenação do Núcleo de Acompanhamento de Políticas Públicas de Educação da Fundação Perseu Abramo, Bruno lembra que “há agenciamentos não estritamente econômicos disputando a subjetividade dos trabalhadores”. O estudo se aprofunda em dois deles: o religioso e os promovidos pelas redes sociais, que ele chama de agenciamentos algorítmico.

O trabalho busca entrelaçar propostas e políticas concretas na arena pública com o papel do desejo, utilizando dados estatísticos do IBGE (PNAD e Síntese de Indicadores Sociais) e do Ministério do Trabalho. Assim, Bruno Costa traça o perfil da classe trabalhadora brasileira, apresentando dados sobre renda, emprego e precariedade do trabalho, para entender o paradoxo econômico: por que a melhoria objetiva dos indicadores econômicos não elimina a insatisfação popular e não se relaciona com a fata de perspectivas da juventude?

Bruno Costa arrisca alguns caminhos possíveis para que a esquerda escape da armadilha da mera redução de danos. A chave, diz ele, citando o ex-ministro Fernando Haddad, apostar na utopia. “Quando não oferecemos uma que guie os passos, a extrema-direita ocupa o espaço com a distopia”, sintetiza. Leia abaixo a entrevista com Bruno Costa.

PT no Senado: O que motivou a produção deste estudo?

Bruno Costa: A Liderança do PT estimulou a assessoria a desenvolver estudos e trabalhos partindo, inicialmente, de problemas públicos. Neste trabalho, tento responder a uma inquietação: por que parcelas expressivas da classe trabalhadora terminam aderindo, muitas vezes, a movimentos e alternativas políticas que tendem a piorar suas próprias condições de vida?

No caso do Brasil, por que existe uma adesão tão significativa à extrema-direita e ao bolsonarismo? A partir de uma série de leituras, percebi que essa reflexão é antiga. No século XVI, por exemplo, o livro Discurso da Servidão Voluntária já questionava por que a população se submetia ao jugo dos tiranos, quando poderia rejeitá-los e construir uma alternativa por si só.

Percorri os canais da esquizoanálise e de Foucault [Michel Foucault, filósofo e historiador] para tentar compreender esse fenômeno. Ela busca entender quais agenciamentos existem na realidade que concorrem para moldar a subjetividade e a criatividade. A partir dessas referências, tentei desenvolver a análise. A questão econômica é muito importante, mas não é a única que influencia o comportamento das pessoas em sociedade. As condições materiais objetivas de vida importam, mas não determinam sozinhas a conduta política em uma disputa eleitoral. Existe a dimensão da subjetividade e do desejo. Busquei compreender quais são os agenciamentos que atravessam a classe trabalhadora brasileira e a dividem em correntes e movimentos políticos distintos.

PT no Senado: Você mencionou o Brasil, mas essa é uma questão bastante global, não?

Bruno Costa: Sim. Percebemos que este é um fenômeno planetário, assim como a financeirização da economia, o abandono do estado de bem-estar social, a crise ambiental e climática e as dinâmicas migratórias. Existe um conjunto de elementos postos no planeta que precisam ser analisados para compreendermos tanto o cenário macro quanto a sua tradução no Brasil. A partir disso, tentamos responder: quem é a classe trabalhadora brasileira hoje? Utilizamos dados do IBGE e do Censo para traçar um retrato e perceber de quem estamos falando.

PT no Senado: E o que esses dados revelam sobre a nossa classe trabalhadora?

Bruno Costa: Praticamente metade da classe trabalhadora nas cidades está na informalidade, com uma curva ascendente. Uma das maiores categorias da classe trabalhadora brasileira é a dos Microempreendedores Individuais (MEIs). São mais de 14 milhões de brasileiros cadastrados formalmente como MEIs, que legalmente são considerados empresários, mas que, na realidade, integram a classe trabalhadora. No estudo, utilizo a expressão “a classe-que-vive-do-trabalho”, do Ricardo Antunes [sociólogo]. Os MEIs são uma das maiores categorias, não possuem direitos trabalhistas e lutam para sobreviver. Uma parcela significativa deles necessita, inclusive, de programas de assistência social como o Bolsa Família para subsistir.

Também fiz um recorte de quantos e quem são os trabalhadores plataformizados, no contexto da “uberização”. Percebe-se que ainda não é uma parcela tão expressiva quantitativamente, não chegam a 2% da classe trabalhadora. Isso não significa que devamos ignorar o fenômeno; pelo contrário, devemos lutar pela regulação e pelos direitos trabalhistas desses profissionais. Contudo, a maior categoria da nova classe trabalhadora brasileira são os MEIs, o que denota que vivemos uma era de destruição de direitos. As pessoas são cada vez mais incentivadas a serem “empreendedoras de si mesmas”, construindo uma subjetividade na qual se doam voluntariamente e integralmente ao trabalho sem garantias trabalhistas básicas.

PT no Senado: Existe aquela famosa frase da política norte-americana: “É a economia, estúpido”. O seu estudo mostra que não é só a economia, que há elementos simbólicos profundos. Diante de uma classe trabalhadora cooptada por discursos fáceis da extrema-direita, como você acha que a esquerda e o governo podem traduzir essa realidade? O que fazer além do debate numérico e das entregas materiais?

Bruno Costa: Essa máxima foi uma das motivações do trabalho. Vários autores nos mostram que não é só a economia; trata-se de uma disputa de imaginação e de imaginário. Além da “desertificação neoliberal” e da destruição de direitos conduzida principalmente nos governos Temer e Bolsonaro, há agenciamentos não estritamente econômicos disputando a subjetividade dos trabalhadores. No trabalho, me aprofundo em dois: os agenciamentos religiosos e os agenciamentos algorítmicos.

Analisamos a adesão de uma parcela da classe trabalhadora ao universo evangélico. O catolicismo ainda é majoritário na declaração de fé da população, mas passa por um processo relativo de perda de hegemonia.

Ressalto que esses segmentos não são monolíticos e não possuem uma visão política única. Faço provocações ao longo do texto: Marilena Chauí [filósofa] está certa ao dizer que a classe média é uma abominação política? Jessé Souza [sociólogo] está certo ao falar em um novo tipo social chamado “pobre de direita”? Acredito que não. A classe trabalhadora é uma fração em disputa. Não existe um novo tipo social fixo. O que existe é uma classe trabalhadora precarizada que busca formas de viver com dignidade e encontra, na periferia, a igreja evangélica como o único espaço de acolhimento. A adesão à igreja evangélica frequentemente traz uma melhora material e social para o fiel, pois cria uma rede de apoio e solidariedade, como aponta Juliano Spyer [antropólogo], e funciona como uma espécie de estado de bem-estar social informal onde o poder público não chega.

Entrevista com Bruno Costa. Foto: Alessandro Dantas

PT no Senado: E além do campo religioso?

Bruno Costa:  Analisamos também os agenciamentos algorítmicos. A produção de informação, imagem e conteúdo é hoje fortemente determinada pelas grandes empresas do Vale do Silício. A manipulação algorítmica é determinante, sobretudo nos processos eleitorais. Para construir um ambiente de disputa democrática real, com paridade de armas, é indispensável garantir uma neutralidade algorítmica mínima.

PT no Senado: O estudo defende concretamente a regulação algorítmica como uma pauta necessária?

Bruno Costa: Com certeza. Mostramos o estado da arte das propostas de regulação, em consonância com o que tem sido feito em espaços como a União Europeia. O enfrentamento da manipulação algorítmica é um desafio que se insere diretamente na disputa entre capital e trabalho. A subjetividade do trabalhador está sendo disputada por algoritmos, e precisamos enfrentar esse debate para ter condições de fazer a disputa política.

PT no Senado: Pensando no governo e em ações concretas: vemos debates sobre isenção do Imposto de Renda, taxas de importação, entre outros. O que você apontaria como ação concreta para disputar esse capital simbólico?

Bruno Costa: A extrema-direita se alimenta da pauta de costumes. A esquerda avança e dialoga melhor com a população quando sai dessa armadilha e entra na realidade objetiva da vida das pessoas.

O governo Lula acertou ao ir para o enfrentamento em pautas como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil (compensada pela tributação dos mais ricos), ao analisar a viabilidade da tarifa zero no transporte público e ao se engajar na luta pelo fim da escala 6×1 sem redução salarial. Isso é fundamental para as condições materiais da classe trabalhadora.

No entanto, é insuficiente. Mesmo quando reduzimos a pobreza e o desemprego e elevamos a renda, a realidade da classe trabalhadora continua sendo extremamente dura devido ao acúmulo de perdas anteriores. Precisamos ir além. Trago a reflexão do ministro Fernando Haddad: quando não oferecemos uma utopia que guie os passos, a extrema-direita ocupa o espaço com a distopia.

Precisamos de um projeto político que encante e ofereça um sonho. No plano institucional, o governo precisa lidar com a realpolitik e fazer os acordos necessários para melhorar a vida do povo. Mas, enquanto partido de esquerda que se reconfirma socialista em seu congresso, o PT precisa projetar um horizonte de longo prazo. Precisamos imunizar a construção política contra o cenário de barbárie projetado pela extrema-direita.

PT no Senado: Há uma percepção de que a esquerda não deveria disputar a pauta moral no campo do adversário, sob o pretexto de que o brasileiro é conservador e que esse seria um terreno ingrato. Ao mesmo tempo, é difícil construir uma utopia sem tocar nesses valores simbólicos.

Bruno Costa: Não acredito que seja uma escolha de “ou um ou outro”. A nossa própria tradição política nos impede de abandonar certas lutas no campo simbólico e dos direitos humanos, como o combate ao racismo, à misoginia, à homofobia e a defesa dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. São pautas inegociáveis para o nosso campo.

A questão é que a direita quer que a gente fique retido exclusivamente nesse debate. O que defendo é que o governo precisa trabalhar para melhorar as condições de vida materiais, mas o partido e os movimentos sociais precisam ir além. Qual é o futuro que estamos projetando para que as pessoas desejem votar no projeto progressista e se engajem em mobilizações sociais?

Esse é o desafio posto para a esquerda brasileira: projetar um Brasil capaz de engajar a classe trabalhadora em um movimento político profundo, capaz de realizar uma reforma agrária real e uma reforma urbana que garanta o direito à cidade. É esse o convite trazido por Haddad e por autores como Paolo Demuru [especialista em semiótica]: a luta atual é pela “maravilha”, pela capacidade de inventar outras formas de sociabilidade e de vida.

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