Critérios polêmicos

Ranking beneficia políticos que votaram contra os trabalhadores

No levantamento, parlamentares sem processos estão “atrás” de Celso Jacob, preso em regime semiaberto
:: Carlos Mota6 de março de 2018 14:54

Ranking beneficia políticos que votaram contra os trabalhadores

:: Carlos Mota6 de março de 2018

Autointitulado “Ranking dos Políticos”, o site politicos.org.br enumera os supostos melhores parlamentares do Brasil. Os critérios do levantamento, no entanto, são adotados para desqualificar os contrários a suas teses. Uma prova disso é que os deputados e senadores que defendem os trabalhadores e a soberania nacional estão entre os últimos colocados. Já os melhores ranqueados são exatamente os que votam contra os interesses da maioria da população.

Até a publicação desta reportagem, todos os nove primeiros colocados (veja na imagem acima) foram favoráveis à reforma trabalhista proposta pela gestão Temer, que promove uma série de retrocesso nos direitos garantidos há décadas na CLT. O levantamento usa critérios diferentes aos adotados por um dos principais rankings parlamentares do país, o “Cabeças do Congresso”, elaborado pelo Departamento Intersindical da Assessoria Parlamentar (DIAP).

O primeiro colocado do políticos.org.br é o deputado Luiz Carlos Heinze (PP-RS), envolvido em uma polêmica durante audiência pública no município gaúcho Vicente Dutra, em 2013. Heinze foi filmado afirmando que o ex-ministro Gilberto Carvalho e a presidenta Dilma estavam “aninhados a quilombolas, índios, gays, lésbias, tudo o que não presta”.

Uma “coincidência” é que boa parte dos que se manifestaram contra a reforma da Previdência na Câmara e no Senado aparece nas últimas posições. O “fim” do levantamento, inclusive, é praticamente dominado por parlamentares de esquerda, a partir de critérios como qualidade legislativa (voto a favor de projetos considerados positivos, de acordo com um conselho do próprio site), formação (quem tem diploma universitário recebe maior pontuação) e processos judiciais.

Alguns desses parlamentares de esquerda sequer respondem a processos judiciais, mas estão piores posicionados no ranking do que um deputado condenado: Celso Jacob (PMDB-RJ), preso em regime semiaberto. Os progressistas também estão bem atrás do senador Aécio Neves (PSDB-MG). Na 423ª posição, o tucano chegou a ser afastado do mandato pelo Supremo Tribunal Federal e só retomou as funções parlamentares após a base governista “liberá-lo”.

Apesar de aparecer como último colocado da página políticos.org.br, o líder do PT no Senado, Lindbergh Farias (RJ), está há sete anos consecutivos entre os “Cabeças do Congresso”. O levantamento do DIAP é feito anualmente desde 1994, sendo divulgado desde então por páginas progressistas e veículos da grande imprensa.

Os conselheiros do “Ranking”

O site políticos.org.br afirma ser uma iniciativa particular dos fundadores – Alexandre Ostrowiecki e Renato Feder. Eles ainda garantem que são “os únicos financiadores desse projeto”.

A página conta com um Conselho Estratégico e, entre os membros, está Regina Esteves, presidenta do Centro Ruth Cardoso, ligado ao PSDB.

Outro integrante do conselho é o empresário Eduardo Mufarej, fundador do movimento RenovaBR, que afirma selecionar, preparar e acelerar novas lideranças políticas. A organização pretende distribuir “bolsas” de até R$ 72 mil e financiar cursos de formação política a até 150 possíveis candidatos a deputado federal e estadual em 2018. Mufarej garante que, por ora, tudo sai do próprio bolso.

A reportagem do jornal Valor Econômico, Mufarej afirmou que o RenovaBR disponibilizaria uma conta em janeiro para que “qualquer pessoa física ou jurídica doe e ajude a financiar as bolsas”, sendo a identificação do doador opcional. “Caso a organização receba de outros empresários, o bolsista não saberá a origem da verba que poderá ir para sua conta”, completou.

A RenovaBR é auxiliada por entidades como o Centro de Liderança Política, do cientista político Luiz Felipe d’Avila, pré-candidato a governador de São Paulo pelo PSDB. Além disso, a iniciativa ainda conta com o apoio do apresentador da TV Globo Luciano Huck e o ex-presidente do Banco Central durante o governo tucano de Fernando Henrique Cardoso, Armínio Fraga.