
Navio petroleiro da Petrobras navega por águas brasileiras.
A crise geopolítica envolvendo o Irã produziu desdobramentos imediatos sobre a economia mundial, especialmente sobre a cadeia global de petróleo. O primeiro impacto foi a rápida elevação do preço do barril Brent, que saiu de cerca de US$ 70 para patamares próximos de US$ 120 em um curto intervalo de tempo.
As raízes desse movimento estão ligadas à centralidade estratégica das rotas de exportação de petróleo do Oriente Médio, em especial dois pontos de estrangulamento do comércio internacional de energia: o Estreito de Ormuz e o Estreito de Bab el-Mandeb. Por essas passagens circula parcela expressiva do petróleo transportado no mundo. No caso específico de Ormuz, estima-se que cerca de 20% da produção global de petróleo transite por essa rota.
A situação se agrava porque a estratégia de defesa iraniana envolve a capacidade de controlar, restringir ou interromper o fluxo de petróleo e outros produtos-chave da economia na região. A interrupção do trânsito no Estreito de Ormuz pela Guarda Revolucionária Iraniana afeta diretamente o comércio global de energia, eleva custos logísticos e pressiona cadeias produtivas dependentes de petróleo e derivados.
O fechamento ou bloqueio parcial do Estreito de Ormuz não impacta apenas combustíveis. Seus efeitos se espalham sobre fertilizantes, gás, alimentos, medicamentos e demais atividades intensivas em transporte e energia, gerando inflação de custos e instabilidade econômica mundial. A alta dos derivados — diesel, gasolina, GLP e insumos petroquímicos — tende a pressionar a inflação global e, como consequência, reforçar políticas monetárias mais restritivas, com juros mais altos e menor crescimento econômico em 2026.

No caso brasileiro, a alta internacional do petróleo se combina a uma vulnerabilidade interna agravada pela atual estrutura do mercado nacional de combustíveis. Entre os diversos erros de política econômica cometidos recentemente, a privatização da BR Distribuidora e da Liquigás se destacam como uma das decisões mais graves do governo Jair Bolsonaro. Ex-subsidiária da Petrobras, a empresa exercia papel estatal estratégico na distribuição de derivados de petróleo, com extensa rede de postos em todo o território nacional.
O problema essencial dessa privatização reside na natureza concentradora da distribuição e revenda de combustíveis, atividades de oligopólios naturais em que, pelas próprias características econômicas do setor, é difícil ou ineficiente haver muitas empresas concorrendo. Vibra (antiga BR Distribuidora), Raízen e Ipiranga detém mais de 50% de doto mercado, operando os preços de maneira significativa em poucas empresas.
O mesmo acontece com o gás de cozinha (GLP). Em termos de estrutura atual, o mercado é ainda mais concentrado. Dados compilados pelo Sindigás a partir da ANP indicam, participação de aproximadamente 24,85% da Copa Energia (antiga Liquigás), 22,21% da Supergasbras, 22,20% da Ultragaz e 17,89% da Nacional Gás, ou seja, quatro grupos concentrando perto de 87% do mercado.
A venda de empresas públicas nesses setores representou perda de capacidade de planejamento e competição em cadeia essencial para a segurança energética do país. A substituição da lógica orientada por sua função social, por uma lógica estritamente de mercado reduziu os instrumentos públicos de coordenação da distribuição e comercialização de combustíveis. Na prática, a privatização contribuiu para a captura de margens na cadeia de distribuição e revenda, com impacto direto sobre o preço pago pelos consumidores.
Essa perda de capacidade pública torna-se ainda mais preocupante em um contexto de choque externo. Enquanto o preço internacional do petróleo alcança patamares acima dos US$100/barril, a Petrobras mantém custo médio de produção extremamente competitivo, especialmente no pré-sal, onde o custo de extração gira em torno de US$ 7. Isso demonstra a eficiência construída ao longo de décadas de investimento público em uma empresa estratégica.
Ou seja, o Brasil dispõe de uma companhia altamente eficiente na produção de petróleo, mas renunciou a instrumentos fundamentais de coordenação na distribuição e comercialização de combustíveis no mercado interno. Produzimos com competitividade, mas perdemos capacidade de intervir de forma mais direta sobre a formação final de preços ao consumidor.
Além disso, o país convive com uma vulnerabilidade estrutural relevante. A capacidade instalada de refino gira em torno de 2 milhões de barris por dia, enquanto o consumo nacional de derivados alcança cerca de 2,6 milhões de barris diários. Como resultado, o Brasil precisa importar parte dos combustíveis que consome, especialmente diesel, do qual cerca de 25% vem do exterior.
Com aprofundamento da crise geopolítica e elevação do preço internacional do barril, essa dependência externa pressiona ainda mais os preços internos. A situação é agravada pela dependência brasileira de importação de fertilizantes e, em menor medida, de gasolina, ampliando o impacto dos choques internacionais sobre toda a cadeia produtiva nacional.
Os dados públicos sobre a formação de preços dos combustíveis no Brasil indicam crescimento expressivo da margem de distribuição e revenda de GLP, gasolina e diesel. A margem de revenda e distribuição praticamente dobrou no período recente. A estrutura privatista implementada ao longo dos governos Temer e Bolsonaro acrescentou, em média, cerca de R$ 30 ao preço do botijão de gás de cozinha, pelo menos R$ 0,65 por litro de gasolina e aproximadamente R$ 0,60 por litro de diesel. Nos momentos de pico, a margem da gasolina chegou a superar em mais de R$ 1 por litro o menor patamar praticado quando a BR Distribuidora ainda exercia papel estratégico no mercado.

Gráfico da Margem de revenda + distribuição na formação de preços de combustíveis, 2020–2026. Fonte: Ministério de Minas e Energia, elaboração própria.
Apesar de a privatização da cadeia de combustíveis limitar a efetividade das ações do governo federal para conter a alta dos preços, foram adotadas medidas relevantes por meio das MPs 1.349 e 1.340. Além de criarem subvenções para preservar determinado patamar de preços, essas medidas reforçaram mecanismos de fiscalização contra práticas abusivas, envolvendo Polícia Federal, Senacon e Receita Federal.
A questão central, portanto, é: qual seria o impacto sobre a renda das famílias brasileiras se o governo Bolsonaro não tivesse privatizado a BR Distribuidora e a Liquigás?
O consumo anual de Gasolina C em 2025 foi de aproximadamente 46,7 bilhões de litros. Isso significa que cada centavo incorporado artificialmente à margem de distribuição e revenda representa centenas de milhões de reais transferidos dos consumidores para agentes privados da cadeia. Da mesma forma, as famílias brasileiras consomem cerca de 400 milhões de botijões de gás por ano. Considerando um acréscimo médio de R$ 30 por botijão associado à elevação das margens após a privatização da Liquigás, chega-se a um diferencial de aproximadamente R$ 12 bilhões por ano retirados da renda das famílias.
A crise internacional do petróleo, portanto, revela uma contradição central da política energética brasileira recente. O governo passado focou em um modelo de Petrobras direcionado à exportação de commodities especialmente o petróleo cru, privatizando ativos de cadeias essenciais para o desenvolvimento e enfraquecendo sua capacidade de coordenação pública sobre a cadeia de combustíveis interna. Em um mundo marcado por instabilidade geopolítica, disputa por recursos estratégicos e choques recorrentes de preços, a privatização de ativos essenciais aprofunda as vulnerabilidades. Recompor instrumentos públicos de planejamento, distribuição e regulação do setor de combustíveis é, portanto, condição necessária para proteger a renda das famílias, conter pressões inflacionárias e fortalecer a soberania energética nacional. A retomada das ações desenvolvimentistas da Petrobras a partir de 2023 demonstram a integração da estratégia empresarial com o restante da economia, investimentos em transição energética, política de preços voltados à suavização dos choques externos e aumento do refino nacional tem revertido parte dos desmontes praticados anteriormente e dos custos negativos às famílias.



