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O Sonho continua, por Beto Faro

Em uma reflexão que vai além do resultado, o senador relaciona o fracasso da seleção à perda de sua identidade histórica e ao enfraquecimento da confiança do futebol brasileiro

Alessandro Dantas

O Sonho continua, por Beto Faro

A Copa do Mundo de futebol masculino que se realiza nos EUA, México e Canadá acabou para a nossa seleção no domingo passado.

Como qualquer dos 210 milhões de brasileiros e brasileiras, fiquei abalado com a queda precoce da seleção brasileira, ainda na fase das oitavas de final. De fato, um final insólito, não ocorrido há 36 anos. Machucou fundo!

A derrota adquiriu proporções perturbadoras por ter ocorrido diante de um time que sem o ‘grandão’ que com 3 toques na bola, enfiou 2 no Brasil, não figuraria no grupo de seleções intermediárias da Copa. Digo isso sem qualquer intenção de desrespeito à Noruega e seu povo, grandes amigos do Brasil, ao ponto, inclusive, de viabilizarem o Fundo Amazônia.

O problema não foi a derrota em si, que literalmente é do jogo. Mas a forma como se deu mediante uma atuação tática de jogo do Brasil que subverteu a cultura e a tradição do nosso estilo de praticar o futebol.

Não tenho intenção de julgar quem quer que seja, mas como também sou ‘técnico de futebol’ como todos os brasileiros, dou meus pitacos.   

Foram 90 minutos de um golpe no talento brasileiro através de uma (des)organização tática estranha aos nossos hábitos que sempre tornaram a vitória muito provável.

Longe disso, assistimos uma partida na qual a Noruega deteve mais de 60% da posse de bola com o Brasil constrangedoramente recuado à espera de um lance fortuito, sem qualquer elaboração, na correria, para tentar alguma coisa. Enfim, afora os esforços e lampejos de talento do Vinicius Júnior, tivemos um grupo de homens perdidos em campo, encurralados pela Noruega. Lembram o segundo gol do ‘grandão’?  Recebeu um passe na fronteira da grande área; se quisesse, teria tido tempo até de sentar na bola, antes de calmamente, sem nenhum incômodo pelo adversário, selar o nosso destino.

Sem “passar pano” nos jogadores, na média com qualidade técnica sofrível para os nossos padrões, será que a tática do treinador os abalou psicologicamente?

Aí vem a questão: o culpado foi o Ancelotti? Diria que, em termos, porque como profissional experiente optou por impor à seleção um padrão de jogo que pode dar certo nas suas paragens europeias. Não bastasse, fez alterações no time durante o jogo que facilitaram o fiasco. A propósito, só com plano de jogo que não admite ousadia para se descartar o talento de Luiz Henrique.

Não irei aprofundar, mas a CBF talvez seja a maior responsável pelos desastres seguidos da nossa seleção.

Fato é que me preocupa muito as consequências do eventual realismo da sensação que tive, no jogo com a Noruega, da reincorporação, pelos nossos jogadores, do famoso “complexo de vira-latas” que na versão do criador da categoria, o dramaturgo Nelson Rodrigues, prevaleceu até antes das nossas vitórias nas Copas de 1958 e 1962.

A partir de então ascendemos à situação da “pátria de chuteiras”, cuja concepção exaltava a nossa paixão pelo futebol. A propaganda da ditadura militar despudoradamente manipulou e explorou, no limite, essa formulação de Nelson Rodrigues.

Na verdade, considero realista, ainda hoje, a “pátria de chuteiras” como estereótipo cultural, mas não em alusão ao futebol e aos seus clubes. A ‘pátria de chuteiras’ capaz de provocar verdadeira catarse nacional que unifica uma sociedade complexa e heterogênea, e identifica o povo brasileiro se restringe à seleção masculina de futebol. Por suposto, pela sua história de glórias e pelos super artistas da bola que tanto emocionaram e orgulharam o Brasil e encantaram o mundo. O sonho do hexa vai aguardar a próxima Copa. Até lá, e principalmente neste ano, vamos descalçar as chuteiras e continuar lutando pelo futuro do Brasil e do nosso povo. Que venha o tetra!

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