Justiça

Soltura de sucessor do “Careca do INSS” reacende debate sobre ramificações do esquema

Atuação de Romeu Carvalho já havia sido questionada por parlamentares petistas durante a CPMI que investigou as fraudes contra aposentados e pensionistas
Soltura de sucessor do “Careca do INSS” reacende debate sobre ramificações do esquema

A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, de substituir a prisão preventiva de Romeu Carvalho Antunes por medidas cautelares trouxe uma nova etapa para as investigações sobre o esquema de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Filho do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, Romeu é apontado pela Polícia Federal como um dos principais operadores administrativos da organização investigada na Operação Sem Desconto.

Em 9 de setembro, o ministro André Mendonça determinou a soltura de Romeu, que estava preso desde dezembro de 2025. A decisão estabeleceu o uso de tornozeleira eletrônica e a entrega do passaporte, além de outras medidas cautelares.

A preocupação com o papel de Romeu no esquema que teve as portas escancaradas no governo Bolsonaro, porém, não é recente. Durante a CPMI do INSS, em agosto de 2025, o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) apresentou requerimento para convocar o empresário a prestar depoimento. Na justificativa, o parlamentar já havia destacado a relação societária de Romeu com o pai e sua condição de alvo das investigações da Polícia Federal.

“O nome de Romeu Carvalho Antunes, filho de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o ‘Careca do INSS’, surge diretamente vinculado ao escândalo que desviou bilhões de reais de aposentados e pensionistas em todo o país. Romeu não apenas figura como sócio em novos negócios liderados por seu pai, mas também aparece como alvo de investigações da Polícia Federal, justamente no mesmo inquérito que apura fraudes envolvendo descontos indevidos nos benefícios previdenciários.”

A convocação foi aprovada pela CPMI em setembro de 2025. Na mesma linha, o então deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) também apresentou requerimento para aprofundar as apurações sobre a atuação de Romeu e sua relação empresarial com o pai.

No documento, Pimenta afirmou que a participação de Romeu nos empreendimentos ligados ao “Careca do INSS” justificava uma investigação mais aprofundada sobre seu papel na estrutura. Para o parlamentar, o vínculo familiar e societário levantava a possibilidade de que Romeu tivesse uma participação que ultrapassasse a condição de sócio formal.

“A participação de Romeu ao lado do ‘Careca do INSS’ em empreendimentos recentes reforça a necessidade de aprofundar as apurações sobre seu papel no esquema. O envolvimento familiar e societário com um dos principais articuladores das fraudes levanta sérias suspeitas de que Romeu não seja apenas um sócio formal, mas que tenha contribuído para dar continuidade a práticas lesivas ao patrimônio dos segurados.”

Pouco mais de um ano depois, o nome de Romeu volta ao centro das investigações em uma condição ainda mais relevante. Segundo a Polícia Federal, após a prisão do pai, ele teria assumido papel de “sucessor operacional” e “principal operador administrativo” da estrutura investigada.

A PF aponta que Romeu teria participado da criação de novas empresas, da movimentação e ocultação de patrimônio e da comunicação entre Antônio Carlos e outros investigados, mesmo diante de restrições judiciais impostas ao pai. As investigações também levantam suspeitas sobre operações patrimoniais no exterior. E, mesmo diante de todas essas informações, Romeu teve a prisão revogada no dia de ontem.

Milhões movimentados por empresas ligadas a Romeu

As suspeitas da Polícia Federal ganham dimensão nos dados financeiros reunidos pela CPMI do INSS. Documentos detalham os fluxos de recursos de empresas vinculadas ao núcleo de Romeu e de seu pai.

Segundo os dados, a Plural Intermediações de Negócios, que tem Romeu como diretor, recebeu R$ 18,6 milhões da Confederação Brasileira dos Servidores Públicos (CBPA). Já a BSB Business Consulting S/A, administrada por Romeu e Antônio Carlos, recebeu R$ 9,75 milhões da mesma entidade.

Os valores ajudam a dimensionar o volume de recursos que passou por empresas associadas ao núcleo familiar investigado e integram o conjunto de informações utilizado para reconstruir a estrutura financeira do esquema.

Outro dado que chamou a atenção dos investigadores foi a evolução da remuneração declarada por Romeu. Segundo informações reunidas pela investigação, seu salário de contribuição, que era de aproximadamente R$ 1,7 mil em 2023, chegou a R$ 107,7 mil em fevereiro de 2024, período em que ele passou a integrar sociedades empresariais relacionadas ao pai.

A variação, isoladamente, não comprova a origem ilícita dos recursos nem significa que os valores movimentados pelas empresas tenham sido incorporados diretamente ao patrimônio pessoal de Romeu. O dado, porém, faz parte do conjunto de elementos analisados pelos investigadores.

A movimentação financeira ajuda a dar dimensão concreta às suspeitas que já haviam sido levantadas durante a CPMI. O que, à época, era objeto de questionamentos parlamentares sobre a participação de Romeu nas empresas passou a ser descrito pela PF, posteriormente, como uma atuação operacional dentro da estrutura investigada.

Outra frente: consignado e Banco Master

A investigação sobre as fraudes no INSS também alcança uma segunda frente relacionada aos empréstimos consignados oferecidos a aposentados e pensionistas.

A relação institucional entre o INSS e o então Banco Máxima, posteriormente rebatizado de Banco Master, começou em 17 de setembro de 2020, quando foi firmado um acordo de cooperação técnica para operações de crédito consignado vinculadas aos benefícios previdenciários.

O marco foi destacado pelo líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), durante os debates relacionados à CPMI do INSS. Em fevereiro de 2026, o parlamentar lembrou que o acordo havia sido firmado durante o governo anterior.

“O acordo de cooperação técnica do Master com o INSS para empréstimos consignados foi firmado no governo anterior, em 17 de setembro de 2020.”

A partir desse relacionamento institucional, as operações de crédito consignado vinculadas ao INSS ganharam novas regulamentações. Em 25 de março de 2022, o então presidente do INSS, José Carlos Oliveira, assinou a Instrução Normativa PRES/INSS nº 131, que alterou as regras para descontos relativos a empréstimos e cartões de crédito nos benefícios previdenciários. A norma incorporou às regras da autarquia o cartão de crédito consignado e estabeleceu uma margem específica para essa modalidade.

Anos depois, auditorias realizadas pelo próprio INSS identificaram problemas em uma parcela expressiva dos contratos informados pelo Banco Master. Dos 338.608 contratos analisados, 251.718, ou 74,3%, apresentaram problemas relacionados à documentação, ao consentimento dos beneficiários ou à validação das operações.

O caso envolve especialmente aposentados e pensionistas, grupo que pode ficar exposto a descontos em benefícios sem a comprovação adequada de que autorizou a contratação.

A atuação de José Carlos Oliveira aparece, assim, em um contexto mais amplo de questionamentos sobre a gestão do INSS. Além de ter presidido a autarquia no período em que foi editada a norma de 2022, ele é investigado na Operação Sem Desconto por suspeitas relacionadas aos descontos associativos.

A edição de uma norma geral, por si só, não constitui prova de que José Carlos Oliveira tenha cometido crime ou atuado para beneficiar o Banco Master. A questão que permanece sob investigação é se houve atuação irregular de agentes públicos ou privados na expansão, operação e fiscalização dessas modalidades de crédito.

A própria manifestação de Randolfe durante a CPMI também abordou a atuação do Banco Central diante do caso Master. Na ocasião, o senador questionou a atuação da autoridade monetária e destacou a posterior intervenção determinada durante a gestão de Gabriel Galípolo.

“Talvez isso explique por que o presidente do Banco Central que não interveio no Banco Master tenha sido o Roberto Campos Neto, e não Gabriel Galípolo. No maior escândalo financeiro da história do país, a intervenção ocorreu devido ao Banco Central e à presidência de Gabriel Galípolo.”

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