Escândalo da Covaxin

CPI aprofunda apuração sobre omissões e corrupção de Bolsonaro

Após o escândalo da Covaxin, senadores ouvem nesta semana Francisco Maximiano, dono da Precisa, empresa envolvida no esquema de corrupção, e devem chamar para depor o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, citado como pivô do caso, e a fiscal do contrato suspeito, Regina Célia Oliveira. Também terão destaque o depoimento do empresário Carlos Wizard, apontado como membro do gabinete paralelo, e a ex-mulher de Pazuello, que se ofereceu para falar
:: Da redação28 de junho de 2021 17:07

CPI aprofunda apuração sobre omissões e corrupção de Bolsonaro

:: Da redação28 de junho de 2021

Após revelações bombásticas feitas pelo deputado Luis Miranda (DEM-F) e seu irmão, o servidor Luis Ricardo Miranda, à CPI da Covid na sexta-feira (25), a comissão prossegue nesta semana colhendo novos depoimentos para descobrir crimes e apontar responsabilidades pela morte de mais de meio milhão de brasileiros durante a pandemia. Nos próximos dias, serão ouvidos o deputado estadual Fausto Vieira dos Santos Junior, relator de uma CPI na Assembleia Legislativa do Amazonas, o empresário Carlos Wizard, apontado como integrante do gabinete paralelo da saúde, e Francisco Emerson Maximiano, dono da Precisa Medicamentos, empresa envolvida no escândalo de corrupção na compra da vacina indiana Covaxin.

Os irmãos Miranda apontaram uma série de irregularidades no Ministério da Saúde no contrato de compra da Covaxin e na nota fiscal apresentado pela Precisa – que representa a fabricante indiana Bharat Biotech – à pasta, em março. A nota estava em nome de uma terceira empresa, que não consta do contrato – a Madison, sediada em Singapura, um paraíso fiscal – e previa pagamento adiantado de 45 milhões de dólares.

Além disso, Luis Ricardo relatou uma pressão incomum para autorizar a importação de uma vacina sequer aprovada pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) e, ainda assim, mais cara do que a média das outras vacinas. O valor negociado foi de U$ 15 a unidade. O contrato, assinado em fevereiro, prevê a compra de 20 milhões de doses por R$ 1,6 bilhão. Nenhuma entrega foi feita até o momento.

O deputado Luis Miranda confirmou ter levado a denúncia ao presidente Bolsonaro em 20 de março. Na ocasião, o presidente citou que o esquema teria à frente o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), e disse que acionaria a PF, mas nada fez. Três meses depois, Ricardo Barros continua no cargo de líder do governo e a PF não havia pedido de informação até a data do depoimento dos irmãos Miranda.

Para o senador Rogério Carvalho (PT-SE), a CPI entra agora em uma nova fase: a investigação de tráfico de influência e superfaturamento na aquisição de insumos. “O crime de tráfico de influência de Bolsonaro já está comprovado. Ele ligou pessoalmente para para o primeiro-ministro da Índia para liberar rapidamente os imunizantes, assim como entrou contato para liberar insumos para a produção de cloroquina. Agora está ganhando força a investigação de improbidade e atos de corrupção”, resumiu.

O senador Humberto Costa (PT-PE) compara o empenho de Bolsonaro e demais autoridades do governo na compra de vacinas. “Para as outras vacinas: obstáculos, ideologia, ‘vacina na casa da sua mãe’. Para a Covaxin: pagar muito mais caro, fazer o pagamento adiantado, desembaraço em tempo recorde. Vamos desbaratar esse esquema”, avisou.

Humberto, Rogério e o líder do PT no Senado, Paulo Rocha (PA), chamam a atenção ainda para um novo componente no enredo da CPI. No fim de semana, a ex-esposa de Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, se ofereceu para depor à CPI. “Mulher do Pazuello quer falar. Teremos mais bomba contra Bolsonaro?”, afirmou Paulo Rocha.

Esquema pode ser maior

No final de semana, Miranda declarou à Folha que o esquema na Saúde pode ser “muito maior”. “Se existir algo realmente ilegal, não é só nessa vacina [Covaxin], é na pasta toda. O presidente Bolsonaro demonstra claramente que não tem controle sobre essa pasta”, afirmou. De acordo com o deputado, o diretor de logística do ministério, Roberto Ferreira Dias, “o homem que dá as cartas”, foi colocado no cargo por indicação de Ricardo Barros. Tanto Dias quanto Barros devem ser chamados à CPI. A comissão deve votar os requerimentos de convocação dos dois nesta terça-feira (29).

Miranda disse ainda ao jornal que, se a CPI decidir fazer uma reunião fechada, seu irmão, Luis Ricardo, teria outras informações importantes a passar aos senadores. “Meu irmão não quer fazer denúncia, porque, pela forma como o Palácio agiu, qualquer informação que ele der, que porventura não se prove lá na frente, vão tentar colocar uma denunciação caluniosa”, justificou Miranda.

No fim de semana, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) afirmou que vai apresentar nesta segunda (28) ao STF notícia-crime contra Bolsonaro por prevaricação. “Estamos diante do seguinte fato: um servidor público concursado e seu irmão, deputado federal, levam ao presidente da República a notícia de que tem um crime de corrupção em curso. O presidente da República informa que tem conhecimento do autor e que se trata do seu líder na Câmara dos Deputados. Mesmo comunicado, o presidente da República não toma nenhuma providência, não instaura inquérito, não pede investigação, nada”, disse Randolfe, em vídeo divulgado nas redes sociais.

Novos depoimentos

Nesta terça, a comissão ouvirá o deputado estadual Fausto Vieira dos Santos Junior, que é relator de uma CPI instalada no Amazonas para investigar crimes e omissões de autoridades durante a pandemia, especialmente em janeiro, quando a rede hospitalar entrou em colapso e dezenas de pessoas morreram por falta de oxigênio.

Na quarta (30), o empresário fujão Carlos Wizard finalmente prestará depoimento à CPI. Wizard é um apontado como um dos integrantes do chamado gabinete paralelo e ferrenho defensor do tratamento precoce da Covid-19 com medicamentos ineficazes contra a doença.  Os senadores querem desvendar quem está por trás dos negócios milionários fechados com a venda de cloroquina no país.

Outro depoimento quente será o do dono da Precisa, Francisco Maximiano, marcado para quinta (1º). A empresa está no centro do esquema de corrupção de Bolsonaro. Segundo apurou reportagem do Estadão, os contratos da Precisa com o governo federal cresceram mais de 6.000% na administração Bolsonaro.

Antes do contrato astronômico de R$ 1,6 bilhão, a empresa fechava negócios mais modestos: um deles custou à Saúde R$ 27,4 milhões, pagos na compra de preservativos femininos. Ainda de acordo com o jornal, no atual governo, o empresário Maximiano também passou a ter acesso a ministérios, ao BNDES e à embaixada do Brasil na Índia.

(Com informações da Agência PT de Notícias, Folha e Estadão)

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