Senadores que defenderam legalidade lamentam repetição de infâmia no Senado

:: Cyntia Campos31 de agosto de 2016 18:16

Senadores que defenderam legalidade lamentam repetição de infâmia no Senado

:: Cyntia Campos31 de agosto de 2016

Lindberggh: “farsa, farsa, canalhas!”No início da tarde desta quarta-feira (31), ato final do julgamento do impeachment da presidenta da República, dois grupos de senadores estavam no plenário da Casa: os que sabiam que Dilma não cometeu crime de responsabilidade e votariam contra seu impedimento e os que igualmente sabiam de sua inocência, mas votariam a favor do impedimento. “Esta sessão não acaba hoje. Ela não acabará nunca, diante da História. O Senado está entre a infâmia e a glória. Quem optar pela infâmia carregará junto a desonra”, resumiu o Líder do Bloco da Minoria, Lindbergh Farias (PT-RJ).

“Esse julgamento é uma farsa, farsa, farsa! As provas foram tratadas de forma absolutamente irrelevante”. Lindbergh fez um apelo aos colegas de parlamento, em nome de suas biografias: “Não pensem pequeno. Não pensem nos cargos que Temer está oferecendo. Pensem na História”, defendeu, lembrando o papel de triste memória desempenhado pelo então presidente da Casa, Auro de Moura Andrade, que decretou a vacância do cargo de presidente da República, com Jango ainda em território nacional, sacramentando o golpe de 64. “Naquela noite, do alto de sua indignação, Tancredo Neves trouxe palavras que são atuais e estão ecoando neste plenário: “Canalhas, canalhas, canalhas!”.

Aquela triste sessão, lembrou Lindbergh, acabaria por ser anulada pela História e, formalmente, por decisão do Congresso Nacional, em 2013. Este é o destino da sessão desta quarta-feira (31) do Senado Federal — 61 senadores votaram pelo impeachment, 20 pela legalidade. “Nós nunca esqueceremos esta data. Uma nova geração de brasileiros democratas vai lutar para anular esta sessão e este Senado pedirá desculpas à presidenta Dilma”, afirmou Lindbergh. “Os senadores que optarem por cometer esse crime vão para a lata do lixo da História, como partícipes de um golpe contra a democracia. Nós vamos dormir tranquilos, porque estamos do lado certo da história, do lado da democracia”.

Terceiro turno
Além de Lindbergh, também falaram em nome do grupo de senadores legalistas Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) e Humberto Costa (PE), líder do PT. Eles destacaram a incapacidade dos partidários do impeachment de comprovar o crime de responsabilidade de que acusavam Dilma e que seria a condição essencial para que o processo tivesse legitimidade. “Foi um processo político, capitaneado por forças que por quatro vezes tiveram sua visão da sociedade brasileira derrotada nas urnas pelo povo”, afirmou Humberto.

A votação desta quarta-feira, avaliou Vanessa, é o desfecho de um processo iniciado em 26 de outubro de 2014, quando Dilma derrotou Aécio Neves (PSDB) nas urnas e conquistou democraticamente a reeleição. “Ali eles retomaram a decisão política de não deixá-la governar”. A sequência dos fatos é conhecida: o bombardeio visando à desestabilização do governo, o vale tudo, a tese forjada das pedaladas. “Aqui não há ingênuos. Todos sabem que não houve crime de responsabilidade e é por isso que nós dizemos que é golpe. Vocês não gostam que a gente diga, mas a gente diz, porque é golpe!”, afirmou Vanessa.

Alguma coisa fora da ordem
Humberto também lembrou que, em 80 anos e em uma sequência de 18 presidentes, Dilma será a quarta a não concluir o mandato. “Alguma coisa está errada no nosso sistema político”, ponderou o senador, para quem é essencial enfrentar o debate de fundo, que é a reformulação desse sistema. Até porque, independente da alegria circunstancial dos “vencedores” do impeachment, nada muda o fato de que quem estava sendo cassada pelo plenário do Senado não era apenas a petista Dilma Rousseff, mas os 54 milhões de votos conferidos a ela. “Não haverá saída [para a crise política] sem que a democracia seja reafirmada”, alertou ele.

O líder do PT lembrou que uma saída para o impasse político que preservaria a democracia havia sido proposta pela própria Dilma, na forma do plebiscito para a definição da antecipação das eleições.

Cyntia Campos

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