Lula: “se pudesse, começaria outra vez pelo Bolsa Família”

Durante festa dos 10 anos do Bolsa Família, Lula criticou o preconceito com o programa.

:: Da redação30 de outubro de 2013 18:28

Lula: “se pudesse, começaria outra vez pelo Bolsa Família”

:: Da redação30 de outubro de 2013

Lula também criticou a receita defendida por um especialista dos bancos que recomendou a necessidade de produzir desemprego e promover um arrocho salarial. “Se isso resolvesse nunca teríamos os problemas que tivemos até chegar ao poder. A Europa e os Estados Unidos já teriam resolvido a situação”.

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“Há certas reações que levam a crer que é mais
difícil vencer o preconceito do que a fome”
(Instituto Lula)

O ex-presidente Lula fez um agradecimento especial nesta quarta-feira (30), durante a celebração dos dez anos do maior programa de inclusão social do mundo, o Bolsa Família, a todas as pessoas que nos momentos mais difíceis acreditaram que era possível ter como principal bandeira de seu mandato o combate incansável contra a fome. “Se eu tivesse que voltar no tempo com a experiência que tenho hoje, começaria pelo combate à fome e à desigualdade, pelo Bolsa Família. Nenhum outro programa teve tanto impacto no Brasil associado a políticas sociais de valorização do salário, de geração de emprego e da frequência escolar”, disse ele.

Ao recordar do período pós-eleitoral de 2002 e da desconfiança existente sobre o que faria no governo um ex-torneiro mecânico, Lula afirmou que seu objetivo inicial era fazer o necessário, depois o possível e, quem sabe, o impossível. “Talvez não tenham percebido que essa estratégia era para construir e viver num país que se habitava, uma não-pátria, que não conhecia seus direitos. O Bolsa Família integrou ao Brasil milhões de pessoas apartadas do processo social. Embora sejam gigantescos, não há números capazes de traduzir, não existe indicador para substituir a palavra dignificada e constatar a mudança na vida das pessoas. O Bolsa Família é vitorioso porque está mudando o curso da história de nosso País”, destacou.

Para Lula, num país com histórico de exclusão social era de se esperar que o programa levantasse dúvidas, questionamentos e enfrentasse muito, mas muito preconceito. Segundo ele, antes se pensava que programa social acabava na entrega de uma cesta básica, mas o Bolsa Família inverteu essa lógica: não basta receber alimentos, é preciso que a família beneficiada tenha geladeira, fogão e dinheiro para comprar o gás, para se vestir, para comprar produtos de higiene pessoal.

“Tinha especialista que fazia críticas quando alguém usava o dinheiro para comprar uma dentadura. Há certas reações que levam a crer que é mais difícil vencer o preconceito do que a fome. De todas as criticas, a mais cruel era a de que o programa estimula a preguiça, a vagabundagem”, afirmou, mas Lula comemora o fato de que não é desta forma que pensa a maioria dos brasileiros. “Só quem nunca viu uma criança desnutrida, uma mãe com o prato vazio, sabe o que é a fome. O Bolsa Família não é uma esmola, é um direito àqueles que sempre foram esquecidos nesse País, um direito que nunca mais esse povo vai abrir mão”, acrescentou.

Preconceito
O ex-presidente Lula reuniu uma coleção de manchetes e matérias de jornais com os ataques que o programa que retirou 50 milhões de pessoas da pobreza recebeu nesses dez anos. Ele citou, por exemplo, matéria de um veículo de comunicação que no dia 21 de julho de 2006 uma adversária política escreveu que o Bolsa Família formava mendigos; em outro jornal, outro político dizia que o programa era uma tragédia social, “fácil de entrar e muito difícil de sair, enquanto um terceiro chamava o programa de bolsa ilusão, bolsa eletrodoméstico e usava toda sorte de adjetivos para negar o programa. “Uns diziam que o Bolsa Família é uma grande enganação, outros que é uma bolsa cabresto e vai por aí. Uma pessoa disse que investir R$ 9 bilhões era um erro muito grave, mas hoje a resposta é que estamos gastando R$ 24 bilhões e esse

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 “Muitos já saíram e muitos outros vão conseguir,
 porque o Brasil vai continuar crescendo de maneira
 forte e sustentável” (Instituto Lula)

programa recebe um prêmio internacional e torna-se referência no mundo”, disse.

Lula também recordou que, recentemente, num discurso na tribuna do Senado, um senador da oposição chegou a dizer que o Bolsa Família estimula a preguiça, apenas para ilustrar como o desafio é ultrapassar a barreira do preconceito. “Engraçado, as pessoas não tinham entrado no programa e já queriam que elas saíssem de tanto incômodo que existe quando o pobre recebe R$ 70, R$ 100 ou R$ 150 por mês. Talvez a descoberta mais difícil é notar o pobre se tornar cidadão, onde ele não precisa pedir favor aos senhores da política e nem precisa trocar voto por uma cuia de farinha. Como falar de porta de saída se as portas da inclusão acabam de ser abertas. O Bolsa Família e o Brasil sem Miséria são a porta de entrada para uma era de desenvolvimento, de emprego e inclusão social. Muitos já saíram e muitos outros vão conseguir, porque o Brasil vai continuar crescendo de maneira forte e sustentável”, enfatizou.

Investimento

Lula também criticou a receita defendida na televisão por um especialista dos bancos que recomendou, recentemente, a necessidade de produzir desemprego, conter os salários e promover um arrocho salarial. “Se isso resolvesse nunca teríamos os problemas que tivemos até chegar ao poder. A Europa e os Estados Unidos já teriam resolvido a situação”, disse ele, ao pedir ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, que faça o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ter um olhar para os mais pobres. É que cada real investido no Bolsa Família retornam para a economia do País R$ 1,78.

“Está provado que o investimento no Bolsa Família movimenta o comércio, impulsiona o setor de alimentos, de produtos de higiene. Na verdade, a ampliação da renda combinada com a valorização dos salários está na raiz do milagre que nós fizemos. Combinar, todos nós, um boa política macroeconômica com a extraordinária força da microeconomia”, salientou.

Em seu discurso, Lula também citou conversa que manteve com o senador Jorge Viana (PT-AC) quando ainda era presidente e, ele, governador do Acre, mostrando que o Bolsa Família dava lições, como o fato concreto de que muito dinheiro nas mãos de poucos servia para alimentar a especulação e pouco dinheiro nas mãos de muitos fazia o País crescer.

À presidenta Dilma Rousseff, Lula disse que a ampliação do Bolsa Família, com a inclusão do Brasil sem Miséria e o programa Busca Ativa, ambos instituídos em sua gestão, estão mudando a cara do País também por garantir a emancipação das pessoas. “Você não tem a dimensão do que fez em três anos. Continue assim. Quem vai agradecer para o resto de sua vida são os pobres que você ajudar, porque os outros esquecem com muita facilidade. E a verdade é que não tem nada mais feio do que a fome”, disse o ex-presidente.

Marcello Antunes

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