“O mundo mudou, e a Organização não se atualizou”, diz Azevêdo

Ao falar sobre a nova conjuntura global, Azevêdo
diz que o maior risco é que “as que negociações
migrem para fora do sistema multilateral

O embaixador Roberto Azevêdo, eleito diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) no início de maio, visitou a Comissão de Relações Exteriores (CRE) do Senado, nesta quinta-feira (23), e falou sobre os desafios de dirigir a instituição. “Assumo num momento muito difícil, crítico, porque há riscos importantes que se colocam para o sistema multilateral de comércio”, reconheceu.

Azevêdo avalia que sua eleição tem um significado importante para o Brasil, demonstrando reconhecimento do País “como um ator central nos foros de governança global, tanto política, quanto econômica”. O embaixador destacou a atuação brasileira na Organização, “como um membro capaz de promover iniciativas, de liderar, de promover consensos, de ser propositivo, de formar grupos, de formar alianças”.

O novo diretor-geral da OMC tomará posse em 1º de setembro e lembrou que, a partir daí, deixa de ser o embaixador brasileiro na instituição. “Passo a receber instruções dos 159 membros. Terei outras funções, o que não significa que eu não me recorde ou que venha a esquecer dos problemas brasileiros, das vicissitudes da nossa economia, das nossas particularidades, do nosso comércio, que estarão muito presentes na minha cabeça e na minha maneira de agir sempre”.

Entre as dificuldades que enfrentará, Azevêdo elencou a necessidade de conectar a OMC á nova conjuntura global. “O mundo mudou, e a Organização não se atualizou”. O maior risco, projeta o embaixador, é que “as que negociações migrem para fora do sistema multilateral. Não significa que eu esteja criticando as negociações bilaterais que estão acontecendo agora. Não acho que essas iniciativas sejam necessariamente danosas. Mas, se o sistema multilateral continuar paralisado, vai haver uma desconexão muito grande entre as disciplinas e as regras que são negociadas no contexto bilateral, no contexto plurilateral e as fundações do edifício”.

Azevêdo alertou que não se deve esperar resultados muito expressivos da Conferência Ministerial de Bali, que a OMC realiza em dezembro, para destravar a Rodada de Doha. “Terei pouquíssimos meses para tentar conseguir que os membros cheguem a um resultado negociado”, avaliou, lembrando que sua posse será apenas em 1º de setembro.

Ele considera que a OMC é “um sistema de imensa importância para o Brasil”, País que hoje tem um comércio absolutamente globalizado e pulverizado. “É a Organização Mundial do Comércio quem estabelece as regras, que devem ser cada vez mais equilibradas para permitir que todos os membros da organização participem do comercio mundial em bases equitativas. O embaixador lembrou que o Brasil tem feito um uso “muito intenso e efetivo” das regras de solução de controvérsias, colocando entre os cinco maiores usuários do mecanismo. “E o faz de maneira muito bem feita, trazendo resultados importantes para a economia brasileiras, para as empresas e a sociedade brasileira de uma maneira geral”. 

O embaixador avalia que a agenda de cooperação bilateral mantida pelo Brasil, ainda que não receba a ênfase que merece, já dá frutos importantes na afirmação do protagonismo do País. “O impacto da cooperação bilateral na área nos mais diversos é muito maior do que a maior parte dos observadores consegue perceber”, afirmou. “O Brasil é entendido como um parceiro, é visto muitas vezes como um exemplo”.

Entre as experiências de cooperação, ele destacou os programas de natureza social. “Isso é tido e é reconhecido como um gesto de parceria, como um gesto de amizade e que leva evidentemente a uma aproximação política, que rende frutos que nós não podemos nem antecipar”. Azevêdo, porém lamentou que a cooperação internacional ainda seja subestimada pelo Brasil, que investe apenas cerca de US$ 50 milhões em projetos desse tipo. “É uma área que poderia ser mais explorada”, afirmou, e sugeriu que a Comissão de Relações Exteriores do Senado poderia aprofundar esse debate, contribuindo para fortalecer essa política.

Cyntia Campos

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