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Senadores criticam atuação de Ernesto Araújo frente à pandemia

Senadores criticaram postura do Brasil nas relações exteriores durante a gestão Bolsonaro, cobraram posição clara do país em favor da quebra temporária de patentes de vacinas na próxima reunião da Organização Mundial do Comércio e pediram demissão do ministro
:: Rafael Noronha24 de março de 2021 21:23

Senadores criticam atuação de Ernesto Araújo frente à pandemia

:: Rafael Noronha24 de março de 2021

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo foi duramente criticado pelos senadores, nesta quarta-feira (24) pela atuação da pasta frente à pandemia e a compra de vacinas para imunização da população contra a Covid-19.

Na avaliação dos parlamentares, a atuação do chanceler que fez, dentre outras coisas, ataques à China no início da crise sanitária, não teria mais condições de permanecer no cargo por dificultar o acesso do Brasil à imunizantes.

“Esse governo não tem como conduzir esse processo de enfrentamento à pandemia. No mesmo dia em que o comitê [de crise] foi criado, o Ministério da Saúde decide fazer uma mudança no processo de notificação das mortes para maquiar a realidade. Não acredito que vamos superar a pandemia com Bolsonaro presidente”, criticou o senador Humberto Costa (PT-PE), presidente da Comissão de Direitos Humanos (CDH).

O senador lembrou que o Brasil foi o único país em desenvolvimento a não se posicionar de forma favorável ao processo de suspensão de patentes para o enfrentamento da pandemia.

“O ministro justifica o posicionamento para não haver fuga de investimento das companhias [farmacêuticas]. Nos Estados Unidos, o investimento para compra das vacinas foi público. Mas o governo Bolsonaro defende o interesse dos países ricos e das grandes farmacêuticas. Por que o Brasil se recusa a defender o interesse da população para garantir vacinas? É lamentável”, completou.

O senador Paulo Paim (PT-RS), autor de um projeto de lei para quebra temporária de patentes de vacinas para a Covid-19 afirmou que, no momento, é preciso haver um esforço global para a superação da crise sanitária. E a postura da política externa brasileira precisa mudar para que o país possa superar esse difícil momento.

“Nós temos que ter uma visão humanitária global. Os países pobres não conseguirão enfrentar a primeira onda do vírus e a Europa já debate a terceira onda. No Brasil os óbitos já ultrapassam três mil mortos por dia. Uma morte a cada 27 segundos. A vacinação para todos é a única solução na guerra contra o vírus que se torna cada vez mais letal”, disse.

Na avaliação de Paim, o Brasil precisa apoiar a proposta da Índia e da África do Sul na Organização Mundial do Comércio (OMC) para que países pobres tenham acesso a vacina.

A OMC não chegou a um acordo em reunião realizada nos dias 10 e 11 de março sobre proposta para suspensão das patentes de vacinas, medicamentos e insumos hospitalares para combater a covid-19 enquanto durar a pandemia. O Brasil foi o único país contrário à ideia entre as nações de renda média e baixa.

“Temos que fazer muito mais para resolver esse apartheid das vacinas. Qual será a posição do Brasil na [próxima] reunião da OMC, sem vacina, sem auxílio [emergencial] estendido, sem escolas e sem empregos? Como viverão os brasileiros? Nos tornamos uma ameaça global na pandemia. Estamos sendo tratados com o isolamento internacional. O mundo está discutindo novas cepas e nós ficaremos apenas chorando nossos mortos?”, questionou.

Pedido de demissão
O líder da Minoria, senador Jean Paul Prates (PT-RN) lamentou a marca de 300 mil mortes causadas pela Covid-19 no Brasil e questionou como um ministro que afirma ser o globalismo um instrumento para a construção do comunismo vai coordenar um esforço de concertação multilateral para a superação da pandemia. Para ele, Ernesto Araújo deveria pedir demissão por ser, hoje, um empecilho na busca do Brasil por vacinas.

“Hoje não só somos párias, como nos tornamos uma ameaça global dado o total descontrole da pandemia no Brasil. Considero que vossa excelência chegou ao fim. Diante da pandemia, o senhor é um elemento que atrapalha o processo [de aquisição das vacinas] pelas próprias atitudes que tomou até hoje que, no mínimo, despertaram em outros países caretas e expressões de espanto”, enfatizou.

Frágil aliança com os EUA e ataques à China
Apesar da tentativa de aliança bilateral da gestão Bolsonaro com os Estados Unidos, o ministro afirmou que as vacinas produzidas pelos laboratórios norte-americanos não estão disponíveis para a vacinação no Brasil.

“A ideia deles é de que, enquanto não tiverem toda a população vacinada, eles [Estados Unidos] não exportarão [vacinas excedentes]. Não estão disponíveis neste momento”, disse aos senadores.

O ministro afirmou ainda que o governo norte-americano doou, ao menos, quatro milhões de doses para países vizinhos como México e Canadá.

Questionado sobre os diversos ataques do governo Bolsonaro ao governo chinês e o impacto desses ataques na dificuldade de o Brasil adquirir imunizantes para o combate à pandemia, Ernesto Araújo chegou a questionar as fontes pelas quais os parlamentares buscam informações acerca do trabalho realizado pelo Itamaraty.

“Os senhores talvez acompanhem [as ações do ministério] por fontes inadequadas. Eu faço um esforço para dar transparência, mas isso é difícil de concorrer com narrativas quando as pessoas querem acreditar nas narrativas”, disse.

Trabalho magnífico
Durante a sessão, Araújo também elogiou o trabalho do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello no combate à pandemia. De acordo com ele, o trabalho do general foi “magnífico”.

O chanceler ainda elogiou os esforços do governo Bolsonaro que, segundo ele, permitirão a vacinação da totalidade da população brasileira até o fim do ano.

“Já existe o planejamento, que é resultado de uma estratégia que começou a ser montada no ano passado”, disse.

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