Viana: processo de impeachment é fruto do inconformismo de quem não aceita as conquistas dos mais pobres

:: Da redação10 de agosto de 2016 00:57

Viana: processo de impeachment é fruto do inconformismo de quem não aceita as conquistas dos mais pobres

:: Da redação10 de agosto de 2016

Viana: para eles, favelado não é vencedor; para eles, pobre é vergonhaO impeachment da presidenta Dilma Rousseff, se concretizado, não será resultado de um crime de responsabilidade, como exigiria a Constituição, mas do inconformismo das elites, que não aceitam a ascensão dos mais pobres, as políticas inclusivas, a transformação do que era privilégio de poucos em direitos de todos. “Tem muita gente neste País que não acredita e não aceita dezenas de milhões de pessoas lutando por uma inclusão social. Tem gente que não tolera pobre dentro de avião. Tem gente que não tolera filho de pobre fazendo faculdade”, afirmou o senador Jorge Viana (PT-AC), em pronunciamento ao plenário nesta terça-feira (9), durante a votação do relatório pelo impeachment da presidenta Dilma.

Para o senador, o que está em julgamento não é a presidenta, mas “um País que saiu da escravidão e conquistou a democracia”. Para Viana, o afastamento da presidenta sem que se tenha comprovado qualquer ilícito é uma decisão que coloca em risco a própria democracia. “Mal a nossa democracia ganha referência, estamos aqui ferindo de morte um processo que, legitimado pelas urnas, colocou a presidenta Dilma para nos dirigir”.

O senador fez um paralelo com as esportistas que vêm se convertendo em grandes heroínas dos Jogos Olímpicos que se realizam no Rio e destacou que as elites “não aceitam que as Martas [principal destaque da Seleção Feminina de Futebol] e as Rafaelas [campeã olímpica no judô] possam ser a referência deste País. Porque para eles, favelado não é vencedor; para eles, pobre é vergonha”.

Leia a íntegra do pronunciamento do senador Jorge Viana (PT-AC):



Sr. Presidente desta sessão especial, grande brasileiro, Ministro Ricardo Lewandowski; colegas Senadoras e Senadores, povo brasileiro, que nos acompanha nesta sessão especial que transforma o plenário do Senado Federal em tribunal: eu começaria dizendo que estamos diante de algo muito grave.

Estamos escrevendo mais uma página na história da mais antiga instituição da República, que é o Senado Federal. Está perto de completar 200 anos.

Nesta sessão temos aqui…Alguns brasileiros devem se perguntar o que faz, na Presidência do Senado, desta sessão, o ilustre Ministro Presidente do Supremo Tribunal Federal. Alguns adversários nossos, que respeito por divergirem de nossa posição, usam o fato de V. Exª estar presidindo esta sessão como se fosse uma chancela no golpe parlamentar que está sendo implementado no Brasil por esse processo de impeachment.

Ouso dizer, fazendo mais uma vez referência, que V. Exª está aqui tão-somente porque a lei que rege o impeachment é uma lei do século passado, da metade do século passado. Os brasileiros precisam entender que a presença de V. Exª aqui não significa que o Supremo está conduzindo ou decidindo o processo de impeachment. Ao contrário, a lei de 1950, a Lei 1.079, foi feita quando o Vice-Presidente da República era também o Presidente do Senado. Óbvio que, no caso de impeachment, de apreciação de crime de responsabilidade do Chefe do Executivo, não caberia o Vice-Presidente da República ser o Presidente desta sessão. Lá eles escreveram que, no caso de impeachment, exatamente pelo Vice-Presidente ser Presidente do Senado, chamar-se-ia o Presidente do Supremo para presidir esta sessão, na fase do impeachment. É tão-somente por isso que o nobre Ministro Lewandowski está presidindo esta sessão. Alguns usam para dizer que o Supremo está assinando embaixo desse golpe. O Supremo Tribunal Federal, a nossa mais alta Corte de Justiça, não assina embaixo de golpe. Quem está dando o golpe é o Parlamento brasileiro, quem está dando o golpe é o Sr. Eduardo Cunha, que iniciou este processo.

Assista o discurso do senador Jorge Viana (PT-AC)Lamento! Respeito a posição dos colegas Senadores e Senadoras. Nós iremos até o fim tentando por fim a essa marcha da insensatez. Estão ferindo de morte a democracia brasileira. Somos um País fantástico. Somos invejados. Usam-se muitas frases para definir o Brasil: bonito por natureza; o País mais rico do mundo; que tem o povo mais fantástico deste Planeta.

Coincidentemente, sediamos, esta semana, o evento de maior audiência do mundo, com mais de 3 bilhões de expectadores acompanhando as Olimpíadas. Ninguém mais pergunta: “quem foi?”, “que país foi esse?”. Já que as mais de 200 nações do mundo disputam sediar uma Olimpíada. Que País é esse que, depois de 500 anos, traz as Olimpíadas para cá, traz a Copa do Mundo para cá? Este é o País de Lula da Silva, este é o País que, há poucos anos, liderava o mundo, que tinha um líder mundial na Presidência da República. Este País, que chamava a atenção do mundo por ter o maior programa de inclusão social sendo praticado no mundo inteiro, com dezenas de milhões de pessoas saindo da miséria, da pobreza, da fome.

Foi esse governo de Lula e de Dilma que tirou o Brasil do mapa da fome, foi esse governo que fez com que a minha Região Amazônica fosse incluída no mapa brasileiro, foi esse governo que tirou o Nordeste brasileiro daquela mancha escura e atrasada do nosso mapa e trouxe o Nordeste para o desenvolvimento.

É por isso que ainda hoje parte da elite brasileira tem preconceito, sim, com os nordestinos. Eles não têm noção do que é viver na Amazônia, a região mais rica do mundo, convivendo com a miséria e com a pobreza. Eles não têm noção, porque não conhecem o nosso País e não sabem o que é ter boa parte dos brasileiros vivendo no Nordeste, há séculos, na exploração.

Eles não aceitam que um retirante miserável, como é o Presidente Lula, saia de lá, em um pau de arara, venha para São Paulo, seja um vencedor, assuma a Presidência da República e conquiste o mundo. Eles não aceitam!

Eles não aceitam que uma mulher, que sofreu a tortura, que foi presa e torturada por defender a democracia, assuma a Presidência da República e possa concluir seu mandato. Eles não aceitam!

Eles não aceitam que as Martas, vencedoras nas Olimpíadas; que as Rafaelas, vencedoras de medalhas de ouro, possam ser a referência deste País. Porque para eles, favelado não é vencedor; para eles, pobre é vergonha.

Agora, ontem, o Brasil celebrava a primeira medalha de ouro, de uma menina nascida na Cidade de Deus, que na década de 60 foi usada como um depósito para favelados no nosso País. Ela, que viveu o preconceito; ela, que viveu todo tipo o de abandono, trouxe a primeira medalha de ouro para o nosso País.

Tem muita gente neste País, Sr. Presidente, que não acredita, que não aceita que um país que tem dezenas de milhões de pessoas lutando por uma inclusão social possa dar certo. Tem gente que não tolera pobre dentro de avião. Tem gente que não tolera filho de pobre fazendo faculdade.

É este País que nós estamos julgando: um país que saiu da escravidão e conquistou a democracia. Mal a nossa democracia ganha referência, estamos aqui ferindo de morte um processo que, legitimado pelas urnas, colocou a Presidenta Dilma para nos dirigir.

É claro que o segundo mandato da Presidenta Dilma enfrenta dificuldades. Primeiro, pela intolerância dos que perderam a eleição; segundo, pela ação política que está em curso.

Falta um pouco mais de dois minutos para eu concluir essa minha fala. Quero repetir aqui que estamos vivendo um jogo de cartas marcadas. V. Exª, Sr. Ministro Lewandowski, falou que esta fase do impeachment é a fase oral, em que a gente só pode falar. E é certo! V. Exª está lendo, interpretando adequadamente. Queria cumprimentá-lo pela condução isenta deste processo hoje aqui. É a fase oral.

Queria aqui dizer: tivemos dezenas, dos 81 Senadores – dezenas! –, que foram ministros dos nossos governos – dezenas! Estão aqui no Plenário, vão poder votar hoje ou amanhã. E eu queria dizer que mudaria meu voto – mudo o meu voto! – se um, dessas dezenas de Senadoras e Senadores que foram ministros da Presidenta Dilma, apresentasse a mim, aqui, na oportunidade dos 10 minutos, uma mancha sequer, dizendo que viram, sentiram, apreciaram, tiveram algum domínio de algum fato do envolvimento da Presidenta Dilma em algum ilícito. Eles conviveram com ela.

Os ex-ministros poderiam vir aqui, as ex-ministras poderiam vir aqui, como faz o Senador Armando Monteiro, como faz a Senadora Kátia Abreu. Vir aqui e dar o seu testemunho. Não. Quando o Presidente Lula era o mais popular brasileiro, muitos dos que estão hoje condenando esse processo de governo nosso estavam lá tirando seus benefícios para buscar e recuperar mandatos.

Eu encerro, Sr. Presidente, dizendo que lamento, lamento que, na presença de V. Exª, o Senado esteja escrevendo uma das páginas mais tristes da sua história e ferindo de morte a nossa democracia. Que o povo brasileiro aprecie e veja que isso aqui não é um tribunal. É um tribunal de carta marcada, onde não há julgamento, apenas uma sentença em curso, que pega o PMDB, que mandou neste País durante vinte anos, e coloca na Presidência da República sem um único voto popular.

Muito obrigado, Sr. Presidente.

Leia mais:

Impeachment sem crime pode ser um caminho sem volta, avalia Roberto Muniz