Wellington Dias

“Governo fala em bilhões e a população acha que aconteceu”

Governador do Piauí diz que o governo federal faz economia irresponsável em tempos de coronavírus. “O investimento deve ser dos tempos de guerra”, diz. “A situação agora é de calamidade”
:: Da redação8 de abril de 2020 15:07

“Governo fala em bilhões e a população acha que aconteceu”

:: Da redação8 de abril de 2020

O governador do Piauí, Wellington Dias (PT), alerta que o governo federal está conduzindo mal a crise sanitária que o Brasil atravessa e que faz uma “ economia irresponsável” ante o coronavírus, impondo barreiras financeiras a estados e municípios. “O governo fica falando em bilhões e a população fica achando que aquilo já aconteceu. E aqui, onde o vírus está, nos estados e nos municípios, não se efetivou. Isso causa um problema muito sério”, desabafou em entrevista concedida ao jornalista Rubens Valente, no UOL. Ele reclama que a União não transfere dinheiro, faz promessas e dificulta repasses. “O investimento deve ser de tempos de guerra”, opina.

“O Piauí já investiu uns R$ 156 milhões na crise da Covid-19 para criar novas salas de UTIs [unidades de terapia intensiva], vagas de leito clínico, salas de estabilização e contratar 700 profissionais”, explica. “Só recebemos até agora R$ 6,4 milhões. O governo federal anunciou ‘estou mandando R$ 8 bilhões para estados e municípios’. Esse dinheiro não está vindo, deve ter vindo no máximo R$ 450 milhões para todo o país. Isso dá uns R$ 2 por habitante no Brasil”, critica.

Segundo o governador, o Ministério da Saúde também não cumpriu com a palavra empenhada com os governadores, em especial os do Nordeste, ao enviar equipamentos incompletos ou demorar a enviar. “O Piauí ficou de receber 10 UTIs. Não chegou nenhuma da forma como foi programada. Os EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) também. Tivemos que colocar R$ 50 milhões para comprar EPIs. Estamos com muita dificuldade”, alerta.

Wellington Dias lembra que o governo federal ficou incumbido de centralizar as compras de EPIs, respiradores, máscaras e outros insumos para os profissionais da saúde e depois encaminhar tudo aos estados e municípios, mas passou a ter problemas com o fornecimento de outros países. Para o governador, a União deveria ter feito como o governo dos Estados Unidos, que enviou aviões para pegar as encomendas no exterior.

Nos outros países é o poder central que pega os seus aviões cargueiros e vai ao país exportador. Por que eu vou esperar trazer lá da China, demorando não sei quantos dias? É preciso fazer o que for necessário se eu tenho um problema de calamidade. A situação agora não é mais de emergência, de urgência, é de calamidade. É o que os outros países estão fazendo e o Brasil precisava ter feito.

O governador diz que, por conta da promessa do governo federal, todo mundo ficou esperando. “O tempo foi passando e somente por volta de 18 de março é que nós tomamos uma decisão nas regiões do país”, explica. “No Nordeste, nós, governadores, pensamos, ‘não vamos mais esperar’. Foi quando fomos conversar com as embaixadas da China e da Alemanha. Passamos a fazer compras conjuntas separadas”.

Promessas não cumpridas
Ele afirma que o Piauí recebeu apenas 40% do total de vacinas prometidas pela União já incorporadas ao calendário anual do país, o que deixa a população vulnerável a outras doenças perigosas e letais, como a da gripe H1N1, um subtipo do vírus influenza. “Para a H1N1 já tem a vacina. Então como o Brasil não prioriza vacina para todo mundo numa fase de calamidade? Estão fazendo uma economia irresponsável de investimentos”, acusa.

O estado tem enfrentado o mesmo gargalo na questão dos testes para Covid-19. Segundo Wellington Dias, a União enviou apenas 800 kits para testes, quando a necessidade do Estado é de 500 mil unidades. “O SOS do Brasil hoje é ampliar o número de testes. Se os empresários, os líderes dos Poderes do Brasil – Executivo, Legislativo e Judiciário – quiserem, é jogar pesado nos testes”, afirma.

Um pacote de 50 mil testes, segundo o governador, custa R$ 6 milhões. O Piauí comprou um pacote de 120 mil testes por cerca de R$ 12,5 milhões. Mas a entrega tem sido a conta-gotas, só o primeiro lote de 20 mil já foi entregue. Para Wellington Dias, o Brasil precisaria de pelo menos 25 milhões de testes.

Somente com uma testagem ampla da população, diz o governador, seria possível discutir um retorno à vida econômica normal do país. “Não é possível fazer um enfrentamento do coronavírus sem os exames. É simplesmente impossível. Não é difícil, é impossível. Quando o Brasil divulga que tem cerca de 12 mil casos de Covid, isso é apenas uma parte muito pequena do que foi testada”, ressalta.

Segundo o governador, os números sobre a pandemia nos EUA deveriam causar muitas interrogações no Brasil. “Os EUA têm 400 milhões de habitantes e o Brasil, 210 milhões. Vamos dizer que no Brasil só existam 12 mil pessoas infectadas, quando nos EUA têm 350 mil. Tem uma coisa errada aqui e é a falta de exames”, compara.

Uma pergunta que tenho feito, já fiz ao ministro da Saúde, será que é uma estratégia para que a gente não saiba o número verdadeiro? É para não criar pânico? Mas a melhor estratégia é a gente saber a verdade. Isso permite planejar. Se eu souber quantos são os doentes no Piauí, consigo fazer um plano, posso fazer mais UTIs, salas de estabilização, corpo clínico, na região que mais preciso. Essa ausência dos testes é algo muito grave.

Para enfrentar a baixa testagem da população, o governo piauiense comprou kits e também colocou em funcionamento um aplicativo de telefone celular que permite averiguar se há casos ocorrendo fora dos radares das autoridades de saúde, a partir das informações prestadas pelos próprios cidadãos.

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