Alessandro Dantas

As entidades representativas da pecuária no Brasil, em especial, a ABIEC- Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes, têm manifestado preocupações com as previsões de esgotamento, já entre maio e junho, da cota de exportação de carne bovina brasileira para a China.
A atual cota do produto para aquele país é de 1,106 milhão de toneladas, com tarifas normais até esse limite e adicional de 55% para volumes excedentes. Houve, portanto, redução superior a 35% da cota 2026 imposta pela China, em relação à cota de 2025 que rendeu 8.8 bilhões de dólares em divisas para o Brasil. Porém, as declarações de lideranças do setor sobre o esgotamento da cota deste ano até o mês de junho têm sentido apenas como retórica para exploração política. Até o mês de março exportamos para a China menos de 400 mil toneladas.
De todo modo, a ABIEC prevê que a queda nas exportações de carne bovina para a China resultará em queda geral nas exportações brasileiras do produto, neste ano, em cerca de 10%. A queda deverá ser maior a depender dos rumos do conflito no oriente médio, região para a qual as exportações brasileiras de carne bovina em 2025 alcançaram 1.2 bilhão de dólares.
Nesse quadro, e ante a impossibilidade de curto prazo do redirecionamento dessas vendas frustradas para outros destinos no mercado internacional, as entidades do setor buscam desovar o produto no mercado doméstico. Nessas ‘horas’ o agronegócio exportador lembra do mercado interno! Vale assinalar que enquanto os EUA exportam em carne bovina o equivalente a 11.2% da sua produção, a fúria exportadora do agro no Brasil nos leva a exportar 26.3% da produção nacional de carne.
O problema é que a expectativa do setor pelo ‘socorro’ no mercado doméstico encontra uma barreira inusitada: pesquisa da NielsenIQ (NIQ) – empresa líder mundial em inteligência do consumidor e análise de dados para o varejo –, constatou o processo significativo de queda no consumo alimentar interno por conta do crescimento das apostas online no Brasil.
Conforme repercussão em veículos da mídia, a pesquisa NIQ revelou que as apostas online (bets) já estão presentes em 26,3% dos lares brasileiros e têm provocado uma substituição direta de consumo básico.
De acordo com a pesquisa, cerca de 10% dos lares apostadores declararam substituir gastos para manter as apostas.
Ainda segundo repercussão pela imprensa, para viabilizar o gasto com jogos, a principal tática dos consumidores tem sido a de reduzir a quantidade de itens comprados; 60% das categorias de produtos monitoradas registraram diminuição no volume adquirido.
O caso é mais severo ocorre em famílias das classes C, D, E, onde as apostas consomem até 13% do orçamento que seria destinado à alimentação nessas faixas de renda.
Nada obstante esse verdadeiro drama social brasileiro, não à toa o nível do endividamento das famílias assumiu proporções gigantescas levando o governo a lançar o Desenrola 2 conforme abordamos no artigo anterior deste espaço.
No resumo desses fatos temos uma interação de anomalias históricas no Brasil. Construímos o agronegócio exportador, importante para o país, mas com deformações estruturais a exemplo da dependência excessiva de alguns poucos destinos externos, em articulação com o definhamento da base produtora de alimentos que levaram a uma dieta alimentar baseada nos ultraprocessados. Os impasses no mercado externo para a carne, poderiam, sim, constituir oportunidade de expansão interna do consumo desse alimento saudável. Mas essa possibilidade esbarra em dois empecilhos: o setor não aceita queda nas margens, e as BETs, criadas após o golpe de 2016 e fortalecidas por Bolsonaro, drenam para o jogo de azar o que seria gasto com alimento. Um dilema multidimensional, secular, com novos ingredientes.



