Alessandro Dantas

O Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de fertilizantes químicos. A ambição brasileira de protagonismo na oferta agroalimentar global levou ao uso ultra intensivo de fertilizantes na atividade agrícola interna, dado a busca de alta performance produtivista em solos, na maior parte, com baixo potencial de respostas naturais.
Essa condição é agravada pela alta dependência do país em importações dos fertilizantes (perto de 90%) o que torna o agronegócio brasileiro no que poderíamos chamar de um “gigante com pés de barro”, tamanha a vulnerabilidade, nesse quesito (entre outros) por parte de um complexo econômico gigantesco.
Nesse contexto de dependência externa absurda, causou enorme preocupação a denúncia da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) segundo a qual o preço dos principais fertilizantes teve um reajuste de mais de 350%, nesta safra, em comparação com a safra passada. Ainda de acordo com manifestação da entidade em matéria divulgada no site Canal Rural, o fato poderá gerar desabastecimento de alimentos no mercado mundial.
Por suposto, a Aprosoja-MT e outras fontes que igualmente alertam sobre a escalada dos preços estão relacionando o fenômeno principalmente aos efeitos das guerras ora travadas entre Rússia e Ucrânia e dos desdobramentos dos ataques dos EUA e Israel ao Irã. Avaliemos sucintamente o caso com base nos dados oficiais do comércio exterior divulgados pelo MDIC.
De janeiro a abril de 2026 o Brasil importou 11.8 milhões de toneladas de fertilizantes químicos. Em 2024 e 2025, em igual período, importamos, respectivamente, 10.2 milhões de toneladas e 11.5 milhões de toneladas. Vê-se que as ‘guerras’ não afetaram o fluxo dos fertilizantes para o Brasil. As importações de abril deste ano em volumes regulares para o mês, não corrobora o argumento que essa normalidade se deve à antecipação massiva das compras brasileiras do insumo.
No que tange aos preços médios, houve aumento de 13.4%, de janeiro a abril deste ano em comparação com o observado no mesmo período de 2025. Porém, o preço médio dos fertilizantes importados, neste ano, até abril (0.36 dólar por kg) foi inferior aos preços de 2022 (0.63) e 2023 (0.37). Em 2024 o preço médio foi 0.31 US$/kg e, em 2025, de 0.34. Ou seja, nos quatro primeiros meses de 2026 os preços médios dos fertilizantes foram apenas 5.9% maiores que a média de todo o ano de 2025.
Sem a explosão dos preços de importação, de janeiro a abril a Rússia se manteve como a principal fonte de fertilizantes para o Brasil (21.3%); a China respondeu por 20%; o Canadá por 14%; e o Marrocos por 9%. Com a China voltando a liberar cotas de exportação para fertilizantes à base de ureia, deverá haver a compensação à redução de 18% nesses fertilizantes importados do Oriente Médio, pelo estreito de Ormuz, de janeiro/abril em relação a janeiro/abril de 2025.
Mas, que as guerras sirvam de alerta para a necessidade imperiosa de aumento substancial da produção interna de fertilizantes. Petrobras anunciou recentemente investimentos significativos para a expansão da produção de fertilizantes. Porém, até pela imposição da transição ecológica para a preservação da agricultura com o avanço da crise climática, o recomendável mesmo seria a busca do produtivismo sustentável da atividade mediante a estruturação da indústria dos bioinsumos, ainda em fase incipiente no Brasil.
Enfim, qualquer guerra é irracional, nociva e trágica em todos os sentidos. E, num mundo globalizado como o atual propaga efeitos desestabilizadores para as economias e populações de todos os países. É difícil mensurar os efeitos finais dos conflitos no oriente médio e Eurásia. No entanto, no caso do fluxo dos fertilizantes para o Brasil, estando correta a denúncia da Aprosoja-MT e outros setores sobre o aumento de 350% nos preços dos principais fertilizantes, a grande guerra por trás, está entre o porto e a fazenda; a causa maior não está na importação, mas na especulação; a guerra é outra!



