Alessandro Dantas

Pelos impactos do aquecimento global na atividade agrícola, penso que a segurança alimentar ganha proeminência entre os grandes desafios atuais da humanidade.
Claro que as novas tecnologias podem mitigar e mesmo adaptar, em boa medida, a atividade agrícola às condições físicas de super estresse derivadas da crise climática.
Nesse sentido já são realidade na agricultura de precisão, o uso de sensores no solo, drones e imagens de satélite que possibilitam o mapeamento, pulverização localizada, robôs agrícolas para plantio, capina e colheita. Uma combinação de otimização dos insumos e práticas culturais com a redução dos seus impactos ambientais.
Da mesma forma, também assistimos ao avanço do uso de biofertilizantes, micorrizas, biopesticidas e soluções de manejo que reduzem impactos ambientais e pressão por insumos químicos.
Enfim, inteligência artificial, big data e outras inovações no universo digital cada vez mais são aplicadas na agricultura como recursos que têm o potencial de garantir produtividade mesmo em condições de deterioração dos sistemas naturais que sustentam a atividade agrícola.
Com esse leque de inovações talvez seja possível a manutenção do caráter produtivista da atividade agrícola, mas agora, com a irrevogabilidade da função ambiental.
Portanto, tendo a achar que as alternativas científicas e tecnológicas já disponíveis e em evolução poderão ajudar a garantir, num futuro próximo, a segurança alimentar da população brasileira, assegurando, ainda, a grande participação do país na garantia desse direito para a humanidade.
Porém, duas variáveis serão definidoras desse cenário. Primeiro, a extensão do aumento da temperatura da terra e, por consequência, da frequência e intensidade da crise climática.
Em segundo, a conscientização de todos os agricultores; grandes, médios e pequenos, sobre o imperativo da variável socioambiental como função da atividade agrícola e não apenas como exigência de razoabilidade de conduta do tempo histórico atual.
Além de opção civilizatória, a sustentabilidade cada vez mais assumirá importância existencial.
Não adianta acusar União Europeia, China ou qualquer país de protecionista por exigirem condutas socioambientais aos produtos que importam. Todas as nações enfrentam os desafios da saúde pública, segurança alimentar e a sobrevivência do planeta.
Permeando essas premissas, a atividade agrícola dependerá cada vez mais do apoio do Estado em razão da ampliação dos riscos naturais da atividade. E este também constitui desafio monumental no caso brasileiro pelos restritos espaços fiscais na atualidade.
Afinal, já no presente momento, a agricultura tem sido a principal fonte de pressões fiscais no âmbito dos setores produtivos.
Em 2025, somente as renúncias tributárias federais em favor do agronegócio alcançaram 184.5 bilhões de Reais, ou 51% do total. Os fertilizantes e agrotóxicos foram beneficiados com 56 bilhões de Reais.
Ainda com dados de 2024 a OCDE calcula que as subvenções aos produtores rurais brasileiros alcançaram 16.2 bilhões de dólares. Medido como proporção do PIB, o apoio total à agricultura no Brasil (0.9%), exceto o caso da China, suplanta o apoio fornecido por todos os países com importância na agricultura a exemplo dos EUA (0.4%); União Europeia (0.6%); Argentina (-0.4%). Na média o apoio à agricultura pelos países eu integram a OCDE não passa de 0.5%. segundo as estatísticas da própria organização.
Portanto, a sociedade e o Estado brasileiros devem se organizar e instrumentalizar para, num esforço que deve ser global, enfrentar e superar esse desafio vital para a humanidade.



