ARTIGO

Beto Faro: O BRICS+ e a possibilidade de uma Nova Ordem Mundial

O fato é que alguns setores não perceberam que além do peso econômico do BRICS+, está a aglutinação de países que controlam grande parte da energia e da oferta alimentar do mundo

Alessandro Dantas

Beto Faro: O BRICS+ e a possibilidade de uma Nova Ordem Mundial

Senador Beto Faro aponta as vantagens da incorporação de novos países ao Brics

Claro que não sou um expert em geopolítica global. Porém, até por se tratar de tema instigante, e por dever de ofício, procuro estar minimamente informado a respeito. Com essa ressalva emito algumas opiniões sobre aspectos que julgo importantes relacionados à 15ª Cúpula do Brics realizada recentemente na África do Sul.

É provável que a reunião de Johanesburgo, marcada pela incorporação de seis novos membros “estratégicos” ao BRICS, consolide e dê celeridade ao movimento contra hegemônico, no plano global, conduzido por países do eixo Sul/Sul (sul global). É de se esperar avanços na direção de um mundo multipolar que crie as condições para relações mais equilibradas e justas entre os países. Um contexto global com mudanças na atual institucionalidade ainda minada por desconfianças e vícios da guerra fria, incluindo uma diplomacia muitas vezes persecutória e excludente levada a cabo pelo ocidente, assim entendido na acepção dominante do conceito que exclui países como o próprio Brasil. Nesses termos, não é a afinidade ideológica o fator de convergência do BRICS+, mas o compromisso dos seus membros por maior simetria nas relações econômicas, financeiras, e comerciais no plano global.

De forma alguma o BRICS+ visa conflito com os EUA, mas é uma necessidade imperiosa dos países de fora do G7 e da OTAN, para que disputem espaços e influência no tabuleiro internacional. Pelo menos o governo brasileiro jamais iria concordar com o BRICS+ como polo político antagônico aos EUA, nação com a qual mantemos sólidas relações históricas. Observe-se que a Arábia Saudita que passará a integrar o BRICS+ é a principal aliada dos EUA no Oriente Médio. A própria China mantém interesses econômicos e comerciais gigantescos com os EUA.

Setores da mídia avaliam que a emergência do BRICS+ significou a capitulação do Brasil às ambições geopolíticas da China. À parte a provável antipatia com o nosso maior parceiro comercial, deliberadamente rejeitam as reais motivações estratégicas do Brasil e dos demais membros desta aliança poderosa. Optam por uma ordem mundial na qual o Brasil, no caso, não consegue dar vazão às suas enormes potencialidades econômicas, políticas e culturais historicamente represadas, em grande medida, pelos estrangulamentos impostos pelo atual sistema de poder.

Não obstante os nossos laços históricos amigáveis e de estreita sinergia com os EUA, traduzidos, inclusive, no apoio territorial e na oferta de produtos estratégicos à participação dos EUA nos esforços de guerra dos Aliados, não apenas o Brasil, mas a América do Sul como um todo, tem sido submetida a expedientes como a vedação de transferência de tecnologias, restrições de acesso aos mercados, de investimentos, etc, que nos tolhem o direito ao desenvolvimento. Essa prática se estende ao restante do “ocidente”; basta ver os termos da proposta de Acordo Mercosul/UE atualmente em discussão.

O fato é que alguns setores não perceberam que além do peso econômico do BRICS+, está a aglutinação de países que controlam grande parte da energia e da oferta alimentar do mundo. Isto, combinado com maior espaço para o continente africano, fato que afora a simbologia geopolítica inclusiva, robustece a potência política do BRICS+ no campo de minerais estratégicos e para a indispensável expansão da produção de alimentos no mundo.

Enfim, não obstante as suas contradições, o BRICS+ representa oportunidade real de disputas por mudanças numa ordem mundial na qual o ocidente prefere despejar 120 bilhões de dólares em armas para a Ucrânia numa guerra provocada, sim, pelos erros da Rússia, mas que vem ocorrendo, também, por ignorarem as ponderações feitas por autoridades do porte do insuspeito Henry Kissinger. A opção persecutória é tanta que os países europeus preferiram impor sanções às suas próprias populações. Enquanto isso, o apoio à preservação da floresta amazônica, crucial para o enfrentamento da maior ameaça para a continuidade da vida neste planeta vem merecendo pífio apoio financeiro pelo ocidente. Vida longa ao BRICS+.

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