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Bolsonaro impediu Brasil de ser o primeiro a vacinar no mundo

Omissão criminosa fez com que o Brasil deixasse de aplicar 60 milhões de doses da Coronavac ainda em 2020
:: Rafael Noronha27 de maio de 2021 13:54

Bolsonaro impediu Brasil de ser o primeiro a vacinar no mundo

:: Rafael Noronha27 de maio de 2021

O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou nesta quinta-feira (27) à CPI da Covid que a entidade ofereceu em julho de 2020 ao governo Bolsonaro 60 milhões de doses da vacina Coronavac que seriam entregues ao Ministério da Saúde e poderiam ter sido aplicadas na população no último trimestre do ano passado.

No entanto, de acordo com o representante do Butantan, o governo não deu retorno às propostas feitas pelo instituto. “[Posições políticas] impediram a vacinação de milhões de pessoas num prazo anterior ao que se começou. Hoje, infelizmente, temos a segunda posição no mundo em número de óbitos. Isso poderia ter sido amenizado”, disse.

Covas relatou que ocorreram “intensas” tratativas com as equipes técnicas do ministério. No dia 20 de outubro, ele chegou a ser convidado pelo ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, para uma cerimônia em que a contratação da vacina seria anunciada. Mas no dia seguinte, após clara interferência de Bolsonaro, a negociação foi desfeita.

“A partir desse ponto, é notório que houve uma inflexão. Porque infelizmente as conversações que deveriam seguir no dia seguinte, não prosseguiram. Houve uma manifestação do presidente [Bolsonaro] dizendo que a vacina não seria incorporada [ao Plano Nacional de Imunização]. Voltamos ao Butantan, mas aí já com algumas dificuldades, com uma incerteza com relação ao financiamento”, relatou Dimas Covas.

Em depoimento à CPI, Eduardo Pazuello foi no sentido oposto e afirmou que Bolsonaro nunca interferiu na compra da Coronavac. “Nunca o presidente me mandou desfazer qualquer contrato, qualquer acordo com o Butantan, em nenhuma vez”, disse o ex-ministro.

O senador Humberto Costa (PT-PE) classificou o depoimento de Dimas Covas à CPI como “demolidor” e afirmou que o representante do Insitituto Butantan comprovou a omissão do governo Bolsonaro diante da pandemia. Diante da possibilidade de compra de vacinas, Bolsonaro optou pelo caminho do negacionismo e da oferta de medicamentos ineficazes contra a Covid-19, expondo a população ao vírus.

“O depoimento do senhor é demolidor. É a prova cabal da omissão, da indiferença, do desinteresse daqueles que fazem esse governo. Feliz o país que pudesse ter um governador e um presidente dando murro na mesa para consegui vacina. Tenho muitas diferenças com ele [João Dória], mas enquanto ele buscava vacina, o outro [Bolsonaro] oferecia cloroquina para uma ema. É uma diferença grande”, disse o senador.

Governo Bolsonaro não deu apoio financeiro
Dimas Covas revelou ainda que o Instituto Butantan solicitou apoio financeiro ao Ministério em agosto do ano passado para o desenvolvimento e produção da Coronavac. De acordo com Covas, “todas essas iniciativas não tiveram resposta positiva [do governo Bolsonaro]”.

Já em dezembro de 2020, apesar das dificuldades relatadas aos senadores, Dimas Covas informou à CPI que o Butantan já havia produzido cinco milhões de doses da vacina. “Nós já tínhamos as doses. O Brasil poderia ser o primeiro país do mundo a começar a vacinação, não fosse os percalços que nós tínhamos que enfrentar nesse período”, explicou.

O senador Jean Paul Prates (PT-RN), líder da Minoria, questionou se o fato de o governo Bolsonaro se omitir e não apoiar a produção da vacina em solo nacional caracterizaria dolo por parte da administração federal, atrapalhando “deliberadamente a viabilidade da vacina brasileira”.

“Essa vacina não teve o apoio [do governo federal] na hora em que foi solicitado. Isso poderia ter dado uma agilidade maior ao desenvolvimento e poderíamos ter um quantitativo maior de vacinas disponíveis para o Brasil no momento adequado”, respondeu Dimas Covas.

Foto: Alessandro Dantas

O senador Humberto Costa, que é ex-ministro da Saúde, mostrou o impacto da politização da ciência no governo Bolsonaro e a diferença do tratamento que a área tinha num passado não muito distante.

“Eu fui ministro da Saúde, Lula foi presidente, Dilma foi presidente. Foram governadores de São Paulo, à época, tanto o ex-ministro da saúde, José Serra, quanto Geraldo Alckmin. A relação que permeou o Ministério da Saúde e o governo de São Paulo sempre foi de colaboração, de construção. Na saúde somos o partido do SUS. Não é direita, esquerda. A diferença é entre quem defende a vida, o maior bem que o ser humano pode ter, e quem namora o tempo todo com a morte. É isso que divide o Brasil hoje”, enfatizou Humberto Costa.

Reação da sociedade impediu Brasil de ter o dobro do número de mortos
O senador Rogério Carvalho (PT-SE) destacou o fato de que o governo Bolsonaro passou a pandemia toda mentindo para a população com a tese da imunidade de rebanho e recusando a verdadeira solução para a Covid-19, a única baseada na ciência, que é a vacina.

O gerente-geral da Pfizer para a América Latina, Carlos Murillo, afirmou à CPI que, a partir de maio de 2020, o governo Bolsonaro recebeu ao menos cinco outros contatos da farmacêutica com ofertas de vacinas. Pelo menos três das propostas apresentadas ao governo Bolsonaro previam 70 milhões de doses.

Foto: Alessandro Dantas

“Com essa disputa fora da racionalidade científica, acadêmica e aceitável do mundo civilizado, nós acabamos ideologizando tudo. E isso nos fez deixar de ter aplicado umas 140 milhões de doses de vacinas, sem dúvida”, disse. “Não são mais de um milhão de mortos, hoje, porque governadores, STF, Congresso Nacional, imprensa, comunidade internacional e a sociedade internacional reagiram à essa tese da imunidade de rebanho [propagada pelo governo]. No entanto, temos quase 460 mil mortos por conta dessa insistência obscurantista da adoção de uma tese devastadora”, emendou o senador Rogério.

Críticas à China prejudicam vacinação no Brasil
Dimas Covas também destacou o impacto da xenofobia de Bolsonaro e de seus ataques à China na entrega de insumos necessários para a produção da vacina que são exportados pelos chineses. De acordo com Covas, hoje, a China já exportou mais de 300 milhões de doses de vacinas para mais de 100 países.

“A China é o maior exportador de vacinas contra Covid do mundo. A China tem uma população de 1,3 bilhão de pessoas e está vacinando em massa sua população. E 30% das vacinas que a China já produziu, ela exportou. Toda declaração que ocorre no Brasil repercute na China. As pessoas da China têm um orgulho enorme da contribuição que elas dão ao mundo nesse momento. Obviamente isso se reflete nas dificuldades burocráticas. Não é possível negar isso”, disse.

O Instituto Butantan retomou na madrugada desta quinta-feira a produção da Coronavac. A produção ficou paralisada desde o dia 14 de maio por falta de matéria-prima.

A produção da Fiocruz também chegou a ser suspensa por falta de insumos. No último sábado (22), chegou no Rio de Janeiro um novo lote de insumos. A produção foi retomada nessa terça-feira (25).

Ministério da Saúde como único cliente
O representante do Instituto Butantan ainda afirmou que seria impensável não ter a produção do Instituto Butantan incorporada ao Plano Nacional de Imunização (PNI).

“Só temos um cliente: o Ministério da Saúde. A produção do Butantan é impressionante. Este ano vamos entregar 80 milhões de doses da vacina da gripe. Um a cada 3 brasileiros vai receber a vacina do Butantan. E não deveria ser diferente, como não foi, na questão da Covid”, respondeu.

 

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