medidas preventivas

Governo foi parceiro do vírus ao desviar recursos de campanhas

52 milhões de reais destinados a campanhas informativas de prevenção ao coronavírus foram desviados pelo governo Bolsonaro para propagandas de outras ações. Medida reforça caráter negacionista do governo e mostra como população foi abandonada em meio à pandemia
:: Rafael Noronha14 de junho de 2021 14:43

Governo foi parceiro do vírus ao desviar recursos de campanhas

:: Rafael Noronha14 de junho de 2021

O governo Bolsonaro desviou R$ 52 milhões previstos para campanhas com peças informativas à população sobre o combate ao coronavírus e, no lugar, utilizou os recursos para fazer propaganda institucional de ações do Executivo em busca de dividendos políticos. As informações foram publicadas em reportagem da Folha de S. Paulo.

Os recursos foram alocados pela medida provisória 942, de abril de 2020 e abriu crédito extraordinário para enfrentamento da pandemia dentro do chamado Orçamento de guerra.

O dinheiro reservado à Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) tinha o objetivo de “informar à população e minimizar os impactos decorrentes da proliferação da doença”. Mas peças publicitárias entregues à CPI da Covid mostram que o dinheiro bancou a divulgação de feitos sem referências a medidas preventivas contra a Covid.

O desvio é constado com base em cruzamento de dados enviados pela Secom à Folha, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), e à CPI da Covid, além de requerimentos de informação entregues à Câmara.

À época, a pasta era comandada por Fabio Wajngarten, que foi ouvido pela CPI da Covid no mês passado.

Necessidade de seguir o caminho do dinheiro
O senador Humberto Costa (PT-PE), membro da CPI da Covid, tem alertado para a necessidade de o colegiado começar a se debruçar sobre o rastro de recursos que a pandemia deixou pelo caminho.

Na última sexta-feira (11), Humberto apontou que, entre março do ano passado e março desse ano, foram vendidos 52 milhões de comprimidos do chamado ‘kit de tratamento precoce’ apenas nas farmácias privadas do Brasil.

Além disso, a venda da Azitromicina, de acordo com o senador, cresceu 50% no mesmo período.

“A utilização desses medicamentos não se trata apenas de um fetiche, uma concepção cientifica errada. Tem muita gente ganhando dinheiro com isso. E isso é preocupante”, disse. “No caso da azitromicina tem um agravante: é um antibiótico, alguém passou essa receita para a pessoa tomar esse medicamento. E estamos vendo pessoas que, efetivamente, não precisavam tomar esse medicamento. Nós precisamos investigar isso. Tem muita gente que ganhou dinheiro com isso. É muito grave”, completou.

Na última quinta-feira (10), o jornal O Globo divulgou conversa entre Bolsonaro e o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, ocorrida em 4 de abril do ano passado, na qual o brasileiro pediu que o parceiro dos BRICS liberasse a exportação de insumos para que empresas nacionais pudessem produzir a hidroxicloroquina. O que acabou acontecendo cinco dias depois.

Um flagrante de tráfico de influência foi detectado no Palácio da Alvorada, com o presidente Jair Bolsonaro em plena atividade para beneficiar empresários amigos da família.

O senador Rogério Carvalho (PT-SE) denunciou à Procuradoria Geral da República o presidente por “tráfico de influência”. “São provas graves de que ele [o presidente] agiu para favorecer empresas, enganar o Brasil com a cloroquina, ignorar a vacina e promover imunidade de rebanho, com contaminação dos brasileiros ao vírus”, criticou o senador, que integra a CPI.

Brasil recursou Covax, mesmo com promessa de reembolso
Documento entregue à CPI da Covid mostra que o governo Bolsonaro na sua trajetória negacionista deixou de comprar mais vacinas do consórcio da Organização Mundial da Saúde mesmo sabendo que haveria reembolso em caso de desistência do país.

O Brasil fechou contrato com o consórcio internacional em setembro do ano passado. Tinha duas opções de compra: 42 milhões de doses, que são suficientes para vacinar 10% da população, ou doses para 50% da população. O governo escolheu a opção com oferta menor.

“Muito grave: documento entregue à CPI da Covid comprova que governo Bolsonaro deixou de garantir doses para vacinar 50% da população brasileira”, criticou o líder do PT no Senado, Paulo Rocha (PA).

Leia também