Golpista arcaico

Ministro da Cultura perde a compostura e é vaiado

O vexame ocorreu durante a cerimônia de entrega do Prêmio Camões, conferido a Raduan Nassar pelos governos do Brasil e de Portugal
:: Cyntia Campos17 de fevereiro de 2017 15:43

Ministro da Cultura perde a compostura e é vaiado

:: Cyntia Campos17 de fevereiro de 2017

Menos de 24 horas após o ministro da Educação Mendonça Filho espancar a língua portuguesa ao anunciar que “haverão (sic) mudanças” no ensino médio, o ministro da Cultura de Temer, Roberto Freire, quase vai às vias de fato com o maior expoente da literatura brasileira na atualidade, o escritor Raduan Nassar.

O vexame ocorreu durante a cerimônia de entrega do Prêmio Camões, conferido a Nassar pelos governos do Brasil e de Portugal, mantenedores da homenagem, no Museu Lasar Segall, em São Paulo, na manhã desta sexta-feira.

Temendo o teor do discurso do escritor — opositor do golpe parlamentar que depôs a presidenta Dilma — o cerimonial do Ministério da Cultura fez uma alteração inusitada no protocolo, escalando Freire para falar depois do homenageado. Raduan não se intimidou e fez uma série de críticas ao governo Temer, que ele qualifica como golpista. “Não há como ficar calado”, recomendou. Na sequência, coube ao ministro da Cultura do golpe revidar, “causando constrangimento com uma resposta agressiva”, conforme reportagem do jornal Folha de S. Paulo.

O Prêmio Camões foi instituído pelos governos do Brasil e de Portugal em 1988 para homenagear autores que tenham “contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa”. O nome da honraria refere-se ao lusitano Luís de Camões, um dos maiores poetas do Ocidente. Entre os agraciados em anos anteriores estão os brasileiros João Cabral de Melo Neto (1990), Rachel de Queiroz (1993) e Jorge Amado (1994), o português José Saramago (1995), o angolano Pepetela (1997) e o moçambicano Mia Couto (2013).

Agraciado com o Prêmio Camões 2016, o paulista Raduan Nassar tem 81 anos. É autor de “Lavoura Arcaica” (1975) e “Um Copo de Cólera” (1978).

Depois de se escalar para falar por último e atacar o homenageado em seu discurso, Roberto Freire divulgou uma nota oficial responsabilizando o PT (!!) pelo incidente, já que sua fala foi recebida com vaias, risos e gritos de “Fora, Temer!”. Freire parece acreditar que o repúdio ao governo que integra é um monopólio petista.

O ministro precisa urgentemente tomar conhecimento da pesquisa de opinião CNT/Census que aponta apenas 10% de aprovação a Temer entre os brasileiros. O PT é grande, mas não representa 90% do País.

ROBERTO FREIRE PERDE A LINHA AO VER RADUAN NASSAR DENUNCIAR O GOLPEO escritor Raduan Nassar, ao receber o Prêmio Camões 2016 fez um contundente discurso de agradecimento onde denunciou o golpe contra a presidenta Dilma. Roberto Freire, o ministro golpista da Cultura, perdeu o equilíbrio e a compostura e fez um papelão. Pra piorar, o ministério da Cultura lançou uma patética nota pública responsabilizando o PT pela brutal rejeição do ministro junto ao segmento da cultura. Reproduzimos abaixo o texto do discurso de Raduan e o vídeo com a fala do escritor e o papelão do ministro:Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.Saudações a todos os convidados.Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.Portanto, Sr.Embaixador, muito obrigado a Portugal.Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidasÉ esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.O golpe estava consumado!Não há como ficar calado.ObrigadoVeja a nota do MinC: http://www.cultura.gov.br/noticias-destaques/-/asset_publisher/OiKX3xlR9iTn/content/id/1399484

Publicado por Lindbergh Farias em Sexta, 17 de fevereiro de 2017


Leia a íntegra do discurso de Raduan Nassar na cerimônia do Prêmio Camões

“Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.
Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.
Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.
Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.

Saudações a todos os convidados.

Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.

Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.

Portanto, Sr. Embaixador, muito obrigado a Portugal.

Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.

Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.

Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.

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‘O golpe estava consumado! Não há como ficar calado”

Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim.

[blockquote align=”none” author=””]Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.[/blockquote]

Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.

Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas

É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.

O golpe estava consumado!

Não há como ficar calado.

Obrigado”.

 

Reprodução autorizada mediante citação do site PT no Senado

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