Alê Bastos

A CPI do Crime Organizado ouviu nesta terça-feira (24/3) a jornalista investigativa Cecília Olliveira, fundadora do Instituto Fogo Cruzado. Durante seu depoimento, a pesquisadora destacou que o avanço do crime organizado no Brasil está diretamente ligado à ausência do Estado em determinados territórios e, em alguns casos, à conivência de agentes públicos.
Com 20 anos de atuação como pesquisadora na área de segurança pública, Cecília afirmou que o atual cenário do crime transnacional e a própria instalação da CPI refletem a incapacidade do poder público de transformar diagnósticos já conhecidos em políticas efetivas.
“Isso significa que nós sabemos investigar, nós sabemos fazer diagnósticos, nós sabemos como lidar com os nossos problemas, mas por algum motivo a gente decide não levar isso em frente”, avaliou.
A especialista também criticou o modelo de enfrentamento adotado nas últimas décadas, baseado majoritariamente em ações ostensivas. Segundo ela, a falta de investimento em inteligência e análise de dados acaba sobrecarregando os policiais que atuam na linha de frente.
“A gente joga toda essa situação no colo dos policiais e cobra mais confronto, mais tiroteio, mais mortes”, afirmou.
Para Cecília, esse tipo de estratégia não tem sido eficaz. Mesmo com operações frequentes e de grande visibilidade, facções e milícias seguem ampliando sua presença, tornando-se mais fortes e influentes política e economicamente.
Outro ponto destacado foi o impacto direto dessas operações na vida da população. Dados levantados no Rio de Janeiro pela pesquisadora mostram que, apenas no último ano, cerca de 500 escolas tiveram o funcionamento afetado por tiroteios.
“Esse modo de enfrentamento tem um custo social e econômico imenso que a gente não consegue mensurar”, alertou.
Ao abordar a ocupação territorial por grupos criminosos, Cecília ressaltou a complexidade de atuação do Estado em áreas dominadas por facções, como o Complexo de Israel. Segundo ela, ações nesses locais exigem alto nível de integração entre órgãos e uso intensivo de inteligência, além de evitar falhas como vazamentos de informações. A pesquisadora também defendeu a importância da regulação econômica como ferramenta de combate ao crime. “Esses grupos não crescem se não tiverem dinheiro. Sem impedir a reestruturação financeira, não há como enfrentar a ocupação territorial”, disse.

O presidente da CPI, senador Fabiano Contarato (PT-ES), reforçou a necessidade de ampliar o olhar sobre os efeitos do crime. Ele destacou o conceito de “direito penal econômico”, ao apontar que os impactos da criminalidade ultrapassam os indicadores tradicionais, afetando profundamente áreas como educação, saúde e desenvolvimento social.
Em regiões dominadas pelo crime organizado, acrescentou Contarato, o fechamento de escolas e a precariedade da infraestrutura agravam ainda mais as desigualdades.



